JOSUÉ

Quando eu morrer
quero ser um vinil
anel cortado a laser
junto ao dedo febril
de minha amante

Quando eu expirar
quero ser um vinil
cor de prata a brilhar
com purpurinas anil
e minha foto ao centro

As rotações que tu me der
hão-de ser as mais justas, pois é
acredito que possas, ponho fé
fazer cinzas tocar, no ar
fazer cinzas arder, vamos ver
na ponta da agulha, marulha
esse banzé de escutar, Josué

Meu novo corpo vibrante
quando eu expirar em vinil
vai fazer com que tu cante
vai ser um sonoro ardil
para eternamente, já vês
eu poder te amar outra vez.

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MAR GRANDE

Não tem como não tocar

na roda de choro do Mar

a gamba é boa e

o caranguejo é colar

rubro dos naufragados

feito flor de amarantos

velas, botes, afogados

orações baixando prantos

no rio Xingu da Baía

areia-inventariados

por Todos os Santos

 

De Itaparica para Salvador

pra que era paquete em Paquetá

ah-cara-já-é, fui pró lado de lá

e me inquieta, perco o destino

quando há funeral de menino

de Santarém para Vitória da dor

de Niterói para a Praça de cá

 

Flotando em braços de Iemanjá

pula inspeções várias o orixá

lotações, rotas, coletes, segurança

água é vida, homem matança

 

Chuva, torrentes, aluviões, alta maré

da desgraça alheia, eles são busca-pé

enxurrados na lama rejeita de Mariana

o rio é Doce e o Mar Grande sacana.

PEDRA DA DOR

Sentei na pedra da dor

ar-doce, job-gin, parti-dia

pousei na ponta do amor

ond’onda traja alegoria

(melou… palminhas!)

 

Ali pairava também

à proa Luiz Melodia

(alôu, d’ostra, amém!)

 

Empeado na pedra-vapor

Melô colhia no arpão do dia

bola melocotón, andaluz olor

al-mirante mirei, surfei melancolia

 

‘Inda vivo, cargueiro d’amor?

sol laranja na cor

inundando seu rosto

junto ao 7 do Posto

 

Pôs raros óculos

ajeitou as tranças

sintonizou os lóbulos

para afinar as danças

 

Era um anjo negro

esse demônio e tanto

holly fada egro

multi-megalanto

 

Sereio atlântido

monge do apocalipse

de olho irrefletido

mediletante eclipse

 

Sentei na pedra do riso

que levitava Millôr

mil tapiocas a gosto

chocogaytranstricolor

guri guria de encosto

 

Nessa pedramor catita

estribava surfista e rastafari

alemã preguiçando vietnamita

manguari degustando seu Campari

ali gari deitava de abâmita

 

E pernas cruzadas Melodia

de harpanjo a tiracolo, melancia:

curtindo essa donzela à fatia.

Ébano cruel, morro do viver:

o Estácio pode lhe querer.

Perpétuas das Areias

dizem que o pastor
comia gafanhotos
mel silvestre e ceratonia
siliqua ou figueira
de pitágoras ou figueira
do egipto ou alfarroba
ou pão de são joão
perpétuas das areias
cor de curau líquene
de milho néctar coral
áureo helichrysum
stoechas sol helichrysum
italicum flavescente picardi
(há quem as chame
de erva-caril, espanta
diabos cróceo, meninas
de são joão…)
bafo quente
fulvo tesouro
pelo ar louras
dunas cubo
de gelo limão
balão laranja
sanfona espremida
no peixe-carvão
da saia-fogueira
da menina-noite
de joão são.

[corre-me aqui na timeline que esta noite (de são joão) é aquela em que, além de balões no ar, aparecem as mouras encantadas, metade mulher e metade serpente, nos castelos da vida (tavira, almourol, etc). elas podem ser desencantadas pelos bravos, por uma noite. e que dia 24 de agosto (dia de s. bartolomeu) “o diabo anda à solta”, logo deve-se tomar um mergulho no mar por precaução. eu não sei muito de lendas não, mas acho interessante….]

 

Geografia

Peguei
voo de 3 4 escalas
hotel de 2 a 5 estrelas
peguei voo de 1
escala só
hotel sem estrela
pensei matutei
chegar ficar me embalar
nos iú ésse eih
sem seguir prabaixo
que nada… o não seguir
prabaixo é doideira mesmo
ponderei destinos
interiores e litorais
planaltos e mangais
até deserto do cariri
percorri esses mapas
com olho de falcão e precisão
estratégica de encontrar
poços de água
no deserto
palmeiras tamareiras
nomes de relevos plantas
pantanais coqueirais ipêzais
serras e cidadezinhas
megalópoles
fotos pessoas ruas
aeroportos hidroviões
histórias estradas que me
guiem até ti através de ti
ao redor por dentro de ti
sobretudo para
ti meus (a)braços
empresas de ônibus
(cadê essempresa
de ônibus trem
avião cruzeiro
não-barulhento?)
mapas lagoas montes
cafezais mata pedra
ribeiros e canoas
estradas cerrado arbustos
e nesse espaço imenso
nesse mapa todo
esse teu corpo inteiro
doce e preciso
perigosinho e concreto
essa tua alma inteira
nobrêdigna
fruta de sábiayalegre irônica
é matemática geografia exata
do meu (nosso) amor crescido.
Umidéia lambuzada
na banheira cereja
chocolate de espuma
não consigo enganar
ninguém no bem-querer-te.
Me guia até ti
meu bem
com os amores cuidados
que te são característicos.
Não é preciso muito
mas te preciso tanto.
Me carrega na mão.
Ai bem, que doçura você tem.

 

 

 

Teu corpo-porto

Meu corpo acordou
em decadcarência e
(prenhe de te saber)
com sede do teu todo 
abraçinteiro
estrutura tombando diagonal 
se estendendo ferrugenta
na direcção oleada de 
tuas afáveis perícias em 
pupilágrimas ternurentas.

teus repentes
torso ferrugento 
em carícias lautas 
eflúvias, dedafrotoque
completamor consumado                                                                                                                                                                                                                                                          
o arado de teu ventre                                                                                                              
num mar de trigo em chamas.
E em todas essas delícias de
te assoprar minha concha ambarina 
afável protetora, minha nau,
saber da efusão das marés
que tua lava em brasa me traz...
Meu corpo acordou ancorado
no teu protetorado, meu amor.
Era um bom porto cálido essa paz.
*
E assim foi que em delícias
toda a noite sustivemos a respiração.
E assim foi que em beijos loucos, carícias
nos condenámos um ao outro sem perdão.

Trocámos os corpos, o teu
soube-me a sal e açafrão
fremente, impulsivo, insensato
para meu gáudio e de mais ninguém.
Soubeste-te aninhar, me animando
construíste uma ponte entre nós 
dois, com vasos comunicantes
disseste tudo o que havia para 
dizer, fazer e foi pouco o
dito ao meu apetite de ti.

Meus lábios queimaram suor em  
sua testa, molharam têmporas
pingaram dos lóbulos inchados
desceram pescoços e maçãs-de-Adão
quiseram tornear os contornos
lindos e ondeantes de seus braços
abocanhar dedos astutos
eles redondaram mamilos arrepiados
desceram peitosepêlos, doces umbigos
beijaram seus joelhos acostumados
quiseram comer tornozelos
e finalmente te alcançaram
sorveram resorveram e a cada 
vez te amaram, maisamaram, 
desmaiaram.

E aí você veio sobre 
mim como um arrepio
uma onda de calor
contra a minha cara
meu coração desabou
espalhou pétalas por ti todo
foram nossos os segredos
dessa tarde e em mil
enredos decoraste um
som bom à minha volta.
Juntos fizemos tudo 
na praia de nossas vidas
você me guia de leve
é uma espécie de amor e utopia
que todos os beijosdomundo não secarão
para desfrutar dos prazeres inteiros
que essa carne fraca nos dá. 

Porquanto em ti todo é meu mundo
e se teu espírito me magnetiza
teu corpo me consuma.
Essa alma doce e sensata
amena, incorruptível
que em amplas asas dignas 
se abre como abrigo
para meus sonhos me
faz chorar de comoção
quando estás cansado de trabalhar,
quando desejas uma segurança
um refresco, uma carícia
uma ternura-recompensa
e és forte e sábio
e grande e digno
e embalamos nossa rede
como duas crianças
brincando de afago.
Não tem tempo nesse tempo
só distância aproximada
doçura do quente da carne
que é alma confirmada,
que é amor desabrochado, 
que é uma linha de açúcar 
na beira do copo, uma
pamonha aberta, lambida,
lambuzando as mãos, uma dança
comovida, um banho espumoso,
uma toalha estendida no chão
de nossos corpos para o 
corpo de nossos corações.

E nossas almas se suspendem, 
suspeitam, agacham
cheiram, movem-se
na direção de nós ambos
não há geografia, há um tapete
de relva e um céu azul
donde você me caiu
para brilhar em meus cabelos.
Amor de minha vida 
e de todas as encarnações
em todas as constelações
desse nosso uni-verso.
Estrela
te quero concretizar
nos quero consumados, amados
te quero demais da conta
esse trem é muito louco
é uma lágrima que me cai
e um peito cheio
uma boca incompleta
sem você
uma duna fervendo
um oásis descoberto
um tesouro só nosso
botão aberto
vela, convés, concha
cais, audácia
sede, fome de ti
cachoeira fresca
mata, bicho,
ciclo da vida
engenho, escarpa,
peixe, sol, alegria,
cansaço,
vontade de nos alimentarmos
um no outro
bebendo suor um do
outro, escorregar na
piscina de teu corpo
mergulhar em tualma 
linda. Amarar nela.
E ficar nesse remanso. 
Calor que me queima 
as pestanas, borbulha de
minha lava, um longabraço
eu não sei existir-me
antes de nós.  <3