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Uma aurora completa como um arco de trigo: amanhece

de tal modo o entendimento. Eles só traziam a vertebralidade

suspensa em duas cápsulas de couro, estilete para lado nenhum.

O ventre da terra, que se une em cor, que passeia. Saber que

o globo é uma consciência animalesca refulgente e esponjosa.

Reconduzido e ermo, desencontrado e distinto, luminescente.

Empédocles, uma visão de futuro onde serpenteia

um filme prateado e denso, cariátides dispersas…

Sírius de cinco pontas, consciente e limpa.

Dois peixes com lótus num turbilhão escuro,

a lua mais próxima, redondil e sextante, degustada

primavera, carimbo de pessegueiro. A bondade

nua, desenrolada no chão.

Um vento incontestável e dominante, os veados

com espelhos onde cavalgam deuses:

corvos intranquilos do espaço.

Uma planta que se rega, Pelasgoí.

Como uma espada desfolhada, jazendo

à luz verde rodeada de grilos. Grande sapo

no charco com fungo por chapéu.

Os ventos de Fu-jin impulsionando

sandálias aladas. Somos todos triângulos

isósceles, escalenos e esferas. Eflúvio

odor de estrelas. Um homem profetiza:

carrega às costas papoilas e wisterias

floribundas num bouquet junino.

Pólen ancestral comendo as coisas vivas.

É como lã debaixo dos choupos, junto montículos

com os dedos. Agarra-se aos namorados.

Ravina vasta, imensa, fértil, longa e festiva:

entorno seguro duma ausência feroz. O morango

da audácia esquecido no caminho da noite,

cem crocodilos a bocejar indolentes, crianças

que estilhaçam sons debaixo dos pés.

O fio da música afiança, tece os dias: uma aranha

sacholada em dois; é Arachne cumprindo o seu destino.

Gralha com bambú e ameixa, duas bolotas doiradas,

vaga vespa em espasmos regulares sobre a cabeça.

E quando Maitreya descer do trono, a chuva deambulará

como as concolvulus raiadas, lançando armadilhas de

vento aos calcanhares graníticos dos animais selvagens.

Talvez tudo seja não mais que um ânimo irresolúvel,

calhau irreprimível, máscara de posses. Em todas as tocas e

vasilhas do futuro onde hibernam os grandes ursos do devir,

as raposas encantadas do desejo, os besouros erodidos

da perseverança e do esquecimento. Cerunnos adianta-se-me

ao caminho, guiando constrangido a carruagem do Pai-Tempo.

O primeiro dente-de-leão atravessa a rua, Ariosto

dentro da laranjada, com um elefante púrpura

e carmim. O nariz do mar que chega até aqui,

aos nossos joelhos. Como todos somos uma eterna

espiral-água, brotando do inconspurcado Enuma-Elish

kaos… Ecrã de prata para orvalho e uma orquestra.

Cereja na garganta do esquilo, industriosamente doce.

*

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