Conto do índio que passava no paço, passeava nos passeios (como todos nós, de resto), sorria na praça, olhava o comércio, chorava na praia, fotografava nuvem ou pôr-do-sol sobre o mar, namorava em frente a quadro e corria ao lado de trem

Um índio desceu duma estrela colorida e brilhante
do Cruzeiro do Sul, veio numa velocidade estonteante
e pousou no coração no hemisfério Norte,
na Europa, num claro instante, foi
andar de mochila p’la praça das pessoas
foi ver Pessoa nas arcadas passear jácarandar
a pé nos passeios é, um rei a cavalo viu: o índio
desceu preservado em pleno corpo físico (graças
a deus, ao que parecia, mas sempre melhor tocar…)
em todo sólido, todo gás e todo líquido
foi na praia fazer datação de carbono 14 aos golfinhos
às ânforas gregas e às deusas egípcias em topless
ao pôr-do-sol, com pano de índio na cintura
apaixonadamente como Peri, veio vendo elas
e os filhos de Ghandi chorarão, foi o axé
do afoxé, tranquilo e infalível como Bruce
leu o Lee, escolheu o quadro mais misterioso
e romântico da National Gallery para namorar
impávido, que nem Muhammed Ali competindo
com o sorriso da Mona Lisa além, esses dados analisa
bem, antes de exterminada a última nação indígena:
o índio senhor mr. moço foi na plataforma do comboio
com gestos finos e curiosos, educadelegantes, poisera
um índio que gostava de ficar no seu canto, tímido mas
observador e charmoso por demais da conta sô essíndio
foi veio olhar em redor, espreitar o céu e as gaivotas
planandascendendo entre as árvores metálicas, seu
olhar começou indosubindo junto com elas quando
minhalma despencou desse precipício dele e do
espírito dos pássaros das fontes das águas (pouco)
límpidas do Tejo, mais avançado que a mais avançada
das mais avançadas das tecnologias pouco avançadas
dos retardados trens, onde olhando foioíndio vendo
uma moça na janela e, logo, desviando o olhar suspirou
por causa dela, poisera um índio que gostava de mar olhar
num ponto equidistante entre o Atlântico e o Mediterrâneo
se a moçalma já estava refém, de novo ficou, doutro
jeito, não tinha jeito, daí o trem começou a barulhar,
eles não queriam mais se apartar e esse trem de
comboio começou a se afastar devagar em átomos,
palavras, alma, cor, em gesto e cheiro, em sombra,
em luz, em som magnífico (e estereofônico)
magnifiquemos
de tal forma que o índio correu no lado do trem
acenando e gritando feito louco “hei, leva meu corpo
a mergulhar também”… a moça mal pôde escutar, teve
gana de parar o objeto, sim, resplandecente e descer
para ficar junto com o índio e as coisas que eu sei
que ela dirá, fará, não sei contar assim, de um modo
explícito. E aquilo que nesse momento se revelará
a ambos surpreenderá aos dois, não por ser exótico
mas pelo fato de poder ter sempre estado sólido
quando terá sido trem vaporeiro.

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