Teu corpo-porto

Meu corpo acordou
em decadcarência e
(prenhe de te saber)
com sede do teu todo 
abraçinteiro
estrutura tombando diagonal 
se estendendo ferrugenta
na direcção oleada de 
tuas afáveis perícias em 
pupilágrimas ternurentas.

teus repentes
torso ferrugento 
em carícias lautas 
eflúvias, dedafrotoque
completamor consumado                                                                                                                                                                                                                                                          
o arado de teu ventre                                                                                                              
num mar de trigo em chamas.
E em todas essas delícias de
te assoprar minha concha ambarina 
afável protetora, minha nau,
saber da efusão das marés
que tua lava em brasa me traz...
Meu corpo acordou ancorado
no teu protetorado, meu amor.
Era um bom porto cálido essa paz.
*
E assim foi que em delícias
toda a noite sustivemos a respiração.
E assim foi que em beijos loucos, carícias
nos condenámos um ao outro sem perdão.

Trocámos os corpos, o teu
soube-me a sal e açafrão
fremente, impulsivo, insensato
para meu gáudio e de mais ninguém.
Soubeste-te aninhar, me animando
construíste uma ponte entre nós 
dois, com vasos comunicantes
disseste tudo o que havia para 
dizer, fazer e foi pouco o
dito ao meu apetite de ti.

Meus lábios queimaram suor em  
sua testa, molharam têmporas
pingaram dos lóbulos inchados
desceram pescoços e maçãs-de-Adão
quiseram tornear os contornos
lindos e ondeantes de seus braços
abocanhar dedos astutos
eles redondaram mamilos arrepiados
desceram peitosepêlos, doces umbigos
beijaram seus joelhos acostumados
quiseram comer tornozelos
e finalmente te alcançaram
sorveram resorveram e a cada 
vez te amaram, maisamaram, 
desmaiaram.

E aí você veio sobre 
mim como um arrepio
uma onda de calor
contra a minha cara
meu coração desabou
espalhou pétalas por ti todo
foram nossos os segredos
dessa tarde e em mil
enredos decoraste um
som bom à minha volta.
Juntos fizemos tudo 
na praia de nossas vidas
você me guia de leve
é uma espécie de amor e utopia
que todos os beijosdomundo não secarão
para desfrutar dos prazeres inteiros
que essa carne fraca nos dá. 

Porquanto em ti todo é meu mundo
e se teu espírito me magnetiza
teu corpo me consuma.
Essa alma doce e sensata
amena, incorruptível
que em amplas asas dignas 
se abre como abrigo
para meus sonhos me
faz chorar de comoção
quando estás cansado de trabalhar,
quando desejas uma segurança
um refresco, uma carícia
uma ternura-recompensa
e és forte e sábio
e grande e digno
e embalamos nossa rede
como duas crianças
brincando de afago.
Não tem tempo nesse tempo
só distância aproximada
doçura do quente da carne
que é alma confirmada,
que é amor desabrochado, 
que é uma linha de açúcar 
na beira do copo, uma
pamonha aberta, lambida,
lambuzando as mãos, uma dança
comovida, um banho espumoso,
uma toalha estendida no chão
de nossos corpos para o 
corpo de nossos corações.

E nossas almas se suspendem, 
suspeitam, agacham
cheiram, movem-se
na direção de nós ambos
não há geografia, há um tapete
de relva e um céu azul
donde você me caiu
para brilhar em meus cabelos.
Amor de minha vida 
e de todas as encarnações
em todas as constelações
desse nosso uni-verso.
Estrela
te quero concretizar
nos quero consumados, amados
te quero demais da conta
esse trem é muito louco
é uma lágrima que me cai
e um peito cheio
uma boca incompleta
sem você
uma duna fervendo
um oásis descoberto
um tesouro só nosso
botão aberto
vela, convés, concha
cais, audácia
sede, fome de ti
cachoeira fresca
mata, bicho,
ciclo da vida
engenho, escarpa,
peixe, sol, alegria,
cansaço,
vontade de nos alimentarmos
um no outro
bebendo suor um do
outro, escorregar na
piscina de teu corpo
mergulhar em tualma 
linda. Amarar nela.
E ficar nesse remanso. 
Calor que me queima 
as pestanas, borbulha de
minha lava, um longabraço
eu não sei existir-me
antes de nós.  <3
 










 

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Conto do índio que passava no paço, passeava nos passeios (como todos nós, de resto), sorria na praça, olhava o comércio, chorava na praia, fotografava nuvem ou pôr-do-sol sobre o mar, namorava em frente a quadro e corria ao lado de trem

Um índio desceu duma estrela colorida e brilhante
do Cruzeiro do Sul, veio numa velocidade estonteante
e pousou no coração no hemisfério Norte,
na Europa, num claro instante, foi
andar de mochila p’la praça das pessoas
foi ver Pessoa nas arcadas passear jácarandar
a pé nos passeios é, um rei a cavalo viu: o índio
desceu preservado em pleno corpo físico (graças
a deus, ao que parecia, mas sempre melhor tocar…)
em todo sólido, todo gás e todo líquido
foi na praia fazer datação de carbono 14 aos golfinhos
às ânforas gregas e às deusas egípcias em topless
ao pôr-do-sol, com pano de índio na cintura
apaixonadamente como Peri, veio vendo elas
e os filhos de Ghandi chorarão, foi o axé
do afoxé, tranquilo e infalível como Bruce
leu o Lee, escolheu o quadro mais misterioso
e romântico da National Gallery para namorar
impávido, que nem Muhammed Ali competindo
com o sorriso da Mona Lisa além, esses dados analisa
bem, antes de exterminada a última nação indígena:
o índio senhor mr. moço foi na plataforma do comboio
com gestos finos e curiosos, educadelegantes, poisera
um índio que gostava de ficar no seu canto, tímido mas
observador e charmoso por demais da conta sô essíndio
foi veio olhar em redor, espreitar o céu e as gaivotas
planandascendendo entre as árvores metálicas, seu
olhar começou indosubindo junto com elas quando
minhalma despencou desse precipício dele e do
espírito dos pássaros das fontes das águas (pouco)
límpidas do Tejo, mais avançado que a mais avançada
das mais avançadas das tecnologias pouco avançadas
dos retardados trens, onde olhando foioíndio vendo
uma moça na janela e, logo, desviando o olhar suspirou
por causa dela, poisera um índio que gostava de mar olhar
num ponto equidistante entre o Atlântico e o Mediterrâneo
se a moçalma já estava refém, de novo ficou, doutro
jeito, não tinha jeito, daí o trem começou a barulhar,
eles não queriam mais se apartar e esse trem de
comboio começou a se afastar devagar em átomos,
palavras, alma, cor, em gesto e cheiro, em sombra,
em luz, em som magnífico (e estereofônico)
magnifiquemos
de tal forma que o índio correu no lado do trem
acenando e gritando feito louco “hei, leva meu corpo
a mergulhar também”… a moça mal pôde escutar, teve
gana de parar o objeto, sim, resplandecente e descer
para ficar junto com o índio e as coisas que eu sei
que ela dirá, fará, não sei contar assim, de um modo
explícito. E aquilo que nesse momento se revelará
a ambos surpreenderá aos dois, não por ser exótico
mas pelo fato de poder ter sempre estado sólido
quando terá sido trem vaporeiro.

Do communists have better sex
Tâmaras frescas e luz escorrente
Ventos azuis na copa do mundo compassos e esferas e grutas secretas onde pombas se estendem lentas. Deixem passar o progresso.

O que é um oxímoro?
Um oxímoro é o vento um
oxímoro é a casa
um oxímoro é calor nada
tem de frio palimpsesto
um oxímoro cheira cozinha
abraça oxímoro tece desagua
cogita rói regride sobe um
oxímoro dói oxímoro sente
aporta alegre. Oxí muro.

Ô óvnipresente
te quero tudo demais.
A vida é um roadmovie
inselbergue multiplicado
piscina na contramão
galpão baía que abre
como afagútero
abraçontemplação
tecelagem altachamachaminé
fábricalabios é erótico
nesse ouvidoescutado
atento e ébrio vagueio
peão domado na luz
cárcere brilhandoce
deriva de unha&rajada
na cabeça palmeiral
ondulada perdandando
o clarão dum’ilha matinal
rede, digitais conexões
guturais analógicas — anil
futur-e-o-drama.