Teatro de Guerra & Outros Teatros Mais

mazen

A Mazen Kerjab e seus pais,

no silêncio de Beirute

 

How can the world watch and do nothing, how can men just use that kind of cowardness against other innocent men, whose only crime is related with painting a sheet of paper in the candle light? Or even against men who aren’t innocent: how can someone turn into an assassin and justify that? Men are such brutal beasts – can one keep relating with evilness, can one not be ashamed of it? Under the bombs, there was this guy trying to answer all these questions, drawing in the candle light, bringing some beauty to the world – based on brutality, violence and eagerness. Who would know: he was able to make it in such a moving, impressive way!

 

Homem – Não me faças isso. Tira o pé de cima do meu joelho.

Mulher – Não vi. De qualquer modo, já não sei onde tenho a cabeça e o estômago, nem qual fica por baixo ou por cima de quê.

H – O que fizeste à lata?

M – À lata?

H – Sim, à lata. Onde a meteste?

M – Creio que ficou para trás. Ou então é isto agora onde enfiei o cotovelo e cortei a minha carne, que já começa a gotejar…

H – Quem goteja sempre alcança. Não me consigo mexer.

M – Ouve! Estou a sangrar, porra!

H – Foram os porcos.

M – Foi a lata.

H – Os porcos! Ouve, não ouves o ruído dos motores da aviação? Está cada vez mais próximo de nós… Achas que vão cair mais aqui?

M – Queiram os céus que não… O meu braço dói-me, mas não sei se dói mais do que o meu coração. Queiram os céus que outros estrondos não venham, nem esvoacem ainda mais membros decepados de outras crianças pelo ar.

H – Não sinto as pernas, Laurel. Se eles vierem com as armas, o que faremos?

M – Escuta, andam por aí… Oiço tiros sobre o ronco dos aviões.

(ouvem-se gritos ao longe e disparos de pistola)

H – O último argumento, Laurel. O último argumento é sempre vida ou morte. A escolha. Não sinto as minhas pernas e tenho a garganta seca. Um pouco de água: morreria feliz…

M – Não tenho, Mazen – bem sabes que não. Poderás sempre beber as minhas lágrimas; se isso te ajudar a viver mais um pouco, chorarei. Até esgotar as lágrimas e as forças.

H – Não fales muito, temos de poupar-nos. Malditos estes cães, que fazem explodir as nossas casas e vidas inteiras evaporarem-se no ar. Bestas sangrentas! Que os céus me perdoem se não são cães raivosos no lugar de homens que pilotam estes pássaros nojentos!

M – Os céus, hoje em dia, não perdoam, Mazen. Ainda bem que não podemos olhar para cima, não saberia como fazê-lo e creio que me esqueci como se reza depois disto. Mas não te esforces demasiado; não fales muito, por favor. A boca secar-te-á mais rapidamente e, assim, nem mil lágrimas minhas chegarão para te saciar.

H – A minha vida foi boa, Laurel. Estou em crer que sim.

M – Claro que foste um homem bom. E tens muita vida por diante, descansa. Ouve: capturaram o velho Mohamed, há uma criança que grita… Não! Pela alma da minha mãe, basta de atrocidades… (começa a chorar)

H – Não desperdices as lágrimas que são para calar a minha sede. Não faças barulho, que o sangue derramar-se-á. Cães malditos!

M – São os animais muito mais inocentes que eles, Mazen. Como poderemos restaurar o amor e fazê-lo viver no meio dos escombros? Abrir a porta da rua, quando rua e casa são uma só? Ou tudo isto um palco? Será por essa razão que lhe chamam teatro de guerra?

H – Tudo isto não passa de uma encenação. E nós, não passamos de actores sofrendo a fingir. Porque é a fingir que eles sofrem, não é?

M – Creio que sim – tu sabes que nunca experimentei actuar. Se bem que, às vezes, os actores parecem tão verídicos… Como representam bem alguns deles! Lembras-te das noites, depois das aulas na faculdade, em que o verão se revelava e expandia – tudo pulsava ao nosso redor –, e daquelas peças no teatro da cidade, que frequentávamos com os amigos?

H – Tudo pulsa também agora: não ouves o explodir das bombas no seu contacto com o solo, como os batimentos dum coração oculto? A cidade traz o peito aberto.

M – As tuas pernas?

H – As minhas pernas não. São uma parte do meu corpo que se calou. Nem o meu sangue sinto que palpite nelas. Já não protestam.

M – Fá-lo a tua boca.

H – Por pouco tempo…

M – Como podes estar tão frio e resignado à vista dum desastre? Toma, aparei lágrimas minhas. (estende-lhe uma mão em concha e ele lambe-a sem dizer nada)

H – Estou em paz. Não frio – em paz. E, agora, ao contacto da minha língua com a tua pele… não vais acreditar, mas… apesar de tudo, feliz.

(ouvem-se motores de avião, a mulher faz um gesto com a cabeça indicando o céu)

M – Não conseguiram, pois não?

H – Isso parece-me evidente. (solta uma risada orgulhosa)

M – Ssssschiuu… eles andam por aí…

H – Lauren, que me importa isso agora? Que venham todos! Hei-de matá-los à paulada, com uma das pernas que não sinto e é como uma pilastra anestesiada!

M – Homem, sê prudente! Olha à tua volta e vê aquilo que a imprudência faz às pessoas…

H – Olharia, se pudesse. Mas: a imprudência, Lauren?

M – Sim, Mazen.

H – Ooohhh, Lauren… (grita de decepção e dor) Então achas seriamente que a Santa Imprudência é a culpada disto tudo? Eu acho que é a estupidez e a maldade. A maldade é um mistério dos mais insondáveis.

M – Não queiras desvendá-lo, Mazen. Chamemos-lhe imprudência – e imprudentes àqueles que se aventuram a descortiná-la. O que é um arbusto, Mazen?

H – Um arbusto? A que propósito vem isso?

M – Num teatro de guerra tudo é absurdo.

H – Um arbusto é uma planta que não chega a ter tamanho de árvore e pode deitar um cheiro meio agradável, ou então esquisito.

M – E tem flores?

H – Alguns sim. Então porquê?

M – Ah, é verdade!! (surpreendida, parece recordar-se do que é um arbusto) Podem tê-las e às cores… não é verdade, Mazen?

H – Claro que sim.

M – Só me vinham à ideia cedros e ciprestes… (recomeça a chorar)

H – Não chores mais, olha que eles vêm aí…

M – Que me importa agora?

H – SSSccchiuu…

(passam dois soldados removendo escombros e matando gente soterrada, faz-se silêncio)

M – Mazen… (sussurra)

H – Estou aqui. (diz ele, quase morto)

M – Achas que vai florescer?

H – O quê?

M – Um arbusto sobre o corpo de cada um de nós. Todo o Líbano florirá. Os arbustos explodirão de cor nas encostas, numa explosão boa. Queres as minhas lágrimas?

H – Já não tenho sede. Onde puseste a lata, afinal?

M – Ou foi isto que me cortou o cotovelo, ou ficou para trás. Aquilo que eles largam são latas, não são? Cheias de pólvora, qualquer coisa assim… Nem sequer sabemos o que nos mata!

H – Explosivos… latas com explosivos são os rockets. Nas bombas, não sei o que vem lá dentro. Mil diabinhos vermelhos certamente, anjos da morte com relógios de pulso, vestidos de neve, e com rostos negros como a noite mais profunda que uma pessoa já conheceu. Antes de nascer nada era negro, ouvia os sons e sentia as festas na barriga da minha mãe. Mas na hora em que a morte vem, tudo escurece e serpenteia.

M – É um lagarto, Mazen. Não te mexas agora.

H – Se eu conseguisse mexer-me… Já não distingo o que vejo para cá nem para lá da fronteira. Vida e eternidade são a mesma coisa, e nenhuma delas faz qualquer sentido, Lauren!

M – Não fales assim. Não fales: geme só… as energias gastam-se menos.

(Mazen geme)

H – Quem perdeu a lata: foste tu ou foram eles, Lauren?

M – Eles, eles. Dorme, Mazen. Já nada mais te aborrece.

H – Como posso dormir, se ao acordar aqui estarei? Tira este bloco de cima de mim, a malha de ferro perfurou-me as pernas e o bloco esfarela-me a espinha.

M – Meu querido Mazen, não consigo. Nem forças tenho para levantar-me.

H – Maldita sejas, mulher inútil!

(Lauren começa a chorar)

H – Por que choras agora?

M – Deliras, Mazen, é por isso… Em toda a tua vida, nunca me trataste assim.

H – Não sentes o cheiro, Lauren? A queimado…

M – São as bombas que explodem e os carros a arder.

H – Não, Lauren, é uma espécie de arbusto… são os cedros a arder.

M – Para que querias a lata?

(Mazen não responde)

M – Mazen! Para que querias a lata? Encontrei-a, Mazen! Mazen?!! (começa a chorar para dentro da lata) Toma, está aqui… se uma lata te matou, haja outra que te faça viver… (tenta dar as lágrimas de beber ao morto) Acorda, Mazen, já acabou… Representas tão bem que pareces morto!! (chora, grita e geme) Mazen?!! Acorda!! Pobre Mazen, a pena não ressuscita ninguém… Em contrapartida, uma caneta, se for tão precisa como uma bomba inteligente, pode salvar tantas vidas!

***

(Janeiro de 2008)

 

 

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