(Proto)Contos

A MALDIÇÃO DE HEMINGWAY

 

« Incêndio destrói museu Hemingway nas Bahamas

Um incêndio que deflagrou na manhã de sexta-feira

destruiu o museu de Ernest Hemingway e o bar The

Compleat Angler na ilha de Bimini, nas Bahamas.

Fotografias e objectos que pertenceram ao escritor

foram consumidos nas chamas, que destruíram o

edifício de madeira que constituía a maior atracção

turística da pequena ilha e que, na década de 1930, foi

um dos refúgios do romancista americano. Entre

jornadas de pesca que se diz terem inspirado a sua

célebre novela O Velho e o Mar, Ernest Hemingway

(1899-1961) era um cliente habitual do Compleat

Angler e trabalhou no argumento de Ter

e Não Ter (filmado por Howard Hawks) em Bimini.»

(in Jornal Público; domingo, 15 de Janeiro de 2006)

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Sou de opinião que a notícia não relatou com grande veracidade os incidentes: só quem não esteve em Bimini. Bimini (eu já lá estive) é um agrupamento encurvado de ilhotas pequenas situadas nas Bahamas, no Oeste Caribenho, ao largo de Miami e Fort Lauderdale, a norte da ilha de Andros, North Cat Cay e South Cat Cay, e a leste de Great Harbour Cay. Nestas ilhotas banhadas a oeste pelo estreito da Florida há tubarões, golfinhos, marlins-azuis, barcos com capotas em arco, cardumes doirados e recifes com cachos de corais cilíndricos e flores cor-de-rosa, peixes da cor das zebras, cobras chamadas Boas e outros peixes ainda chamados Língua de Flamingo, além de caranguejos gigantes da selva com carapaças verde-mortiço e enormes pinças cortantes. As Bimini, rodeadas de líquidos esmeralda, invadidas de peles graciosas e incandescentes, têm a forma dum útero de mulher e muitos iates em reparação nos ancoradouros. Existe um nó de navegação Bimini. Há dunas e palmeiras e juncos e algas nas praias; as palmeiras dominam, aquelas palmeiras que parecem um espanador deitado sobre um mar azul, tão azul que retira o fôlego. Na vegetação existe um sopro de vida que nos une ao universo e todos os animais espalham à noite pelo chão um rumor de sombras fugidias, cheio por dentro do mesmo calor molhado que nos ensopa a nuca ou escorrega pela espinha e desliza membros abaixo durante o dia. Bimini é o portão de passagem, a porta de entrada nas Bahamas: “The Gateway to the Bahamas”, como dizem os ianques. Daqui para diante, umas coisas melhoram e outras pioram, como o feíssimo Hotel Atlantis em Nassau Paradise Island, a sudeste. Já Rum Cay e Spanish Wells são localizações no mínimo interessantes ou curiosas – com tanta água à volta, para que seriam necessários os numerosos poços? Mas eu queria falar-vos das Bimini – o paraíso dos mergulhadores –, do seu Nixon Harbour e de como convém estar bem perto em relação a South Bimini Yatch Club quando se põem nuvens de tempestade a protestar espelhadas no mar tranquilo e traiçoeiro. Convém também distinguir desde já entre North Bimini (digamos que os ovários no desenho de perfil uterino das ilhotas) e South Bimini (digamos que uma parte que poderão muito bem os senhores imaginar, ao localizá-la em relação ao conjunto das outras ilhas, sem que eu a refira explicitamente, o que se tornaria sem sombra de dúvidas ridículo no que diz respeito a um pedaço bem concreto de terra, com aeroporto, terminal, torre de rádio e tudo o mais). Queria falar-vos do Bar Fim do Mundo em Bimini – “End of the World Bar” para os ianques –, feito com tábuas de madeira gastas caligrafadas a preto, e do arco ogival cor de sangue encimando o portão do Bar Compleat Angler, a sua grande borracheira pouco adiante, com grandes dentes carnívoros assomando dentro dos cones das folhas numa fúria absoluta, e a varanda torneada pintada em tons esverdeados consumando na sua aparente tranquilidade uma contradição interessante. Ou falar-vos, por exemplo, de Ernest Hemingway, quando não estava a trabalhar n’O Velho e o Mar nem a conviver com os habitantes locais no Sloppy Joe’s Bar, emboscando os esquivos marlins-azuis longe dos bancos de areia, no mar profundo, pendurando-os depois num convés barqueiro por meio de complexos sistemas de roldanas e cordas, de bico aguçado como uma agulha roçando o tabuado para a fotografia gloriosa junto dos compinchas, a coroar com perfeição e bravura a pescaria.

Devo confessar que a pesca não me atrai tanto quanto outros entreténs: informei-me sobre os campos de golfe mais viçosos nas Bahamas, comprei o Guia de Mergulho com todos os detalhes sobre as profundezas atlânticas e inscrevi-me num pacote promocional com a duração de oito dias e a partir de $499, soltando amarras em Fort Lauderdale. Fiz-me ao mar caribenho com uma fotocópia da ilustação das ilhas da autoria de Thomas Medina (’92) dobrada no bolso dos calções – estava um pouco desbotada à chegada, a cor comida pelo vento salgado e pela persistência cortante das marés – onde as ilhotas “Rabbit” de Bimini, as mais meridionais, vinham representadas com a forma de três pequenos e redondos excrementos de coelho largados ali em pleno mar, o que me pareceu no mínimo divertido e na melhor das hipóteses bizarro. Quando ancorámos, passei os olhos vagamente pela carta marítima das Bimini que o comandante trazia aberta sobre a mesa da cabine:

255ºM 42mi 045ºM/ Shifting Sandbar/ EAST WELL/ Casa Grand Hotel/ PARADISE POINT/ Shifting Sandbar/ BAILEY TOWN/ NOTH BIMINI/ Mangroves/ Alec Cay/ Cable Area/ ALICE TOWN/ Marsh/ Pigeon Cay/ BIMINI ISLANDS: see BIM3 Closeup Bimini Harbour/ Sand Flat Dry at LowWater/ Aero MO (B) R 20 s 23 mi Tower Missing 1997/ Sandbar/ Range/ SOUTH BIMINI/ Airstrip/ PORT ROYAL/  Marsh/ NIXONS HARBOUR aa

e não compreendi nada. Senti-me feliz por trazer aquela gravura naïf e desbotada dobrada no bolso dos calções, sempre seria mais fácil orientar-me através dela (eu já lá estive mas não houve tempo para um mapa, compreendam: foi bem súbita a minha partida). Ao reparar que eu observava a sua carta marítima com uma expressão confusa, o velho raivoso lançou-me um olhar recriminatório que não entendi, ou então foi o pânico a impedir-me de raciocinar sobre o que quer que fosse naquele preciso instante. Balbuciei aterrado: «Desculpe, comandante» e saí o mais depressa que pude para o convés da embarcação, querendo juntar-me ao grupo dos restantes passageiros – na maioria turistas – que se agitava já, esbracejando como passarada eufórica em Março, com a perspectiva de pôr o pé em terra. Gaivotas e outras aves aquáticas vinham receber-nos com estrépito. Sozinho sentado na amurada do barco, vendo o porto preguiçoso à nossa frente estendido e uma fiada de palmeiras eriçadas como ouriços nas suas ramagens ociosas sob o sol quente – o motor do barco a fazer rugir o chão debaixo dos meus pés e uma brisa salgada entrando-me narinas adentro sem pedir licença –, pude então tomar consciência daquilo que novamente, sem qualquer margem para dúvidas, de facto se passara comigo ou na minha presença. Lançara-me o velho comandante na cabine o tal olhar censório e os seus olhos, que eram até essa altura escuros como linhito, reflectiram de súbito a cor densa e perpétua do mar, depois tornaram-se incandescentes, vermelhos e inchados como grandes bagos de cereja maduros, lançando sobre mim o fogo vivo e perturbador de mil brasas em combustão. Que imagem aterradora aquela! Que tormento hediondo me vinha trazendo por meu pé até onde eu não quereria ou jamais sonhara!

Tudo começou há dois meses atrás, na modesta casa da pequena cidade onde habito. Nunca fui de grandes conversas, tão-pouco muito numerosas amizades: sigo o meu instinto e é só, de resto nunca me dei mal com isso. Sucede que na noite do velório da minha mãe, faz agora precisamente dois meses, não houve intuição nem bom-senso suficiente ou tão persuasivo que me resguardasse de assistir aos graves e não menos extraordinários acontecimentos que a seguir relatarei. Daí para cá o meu mundo tem desabado, persistente, várias vezes ao dia e sem qualquer justificação – quando eu penso que mais nada será possível, logo o maior de todos fenómenos se revela, e então o meu optimismo passado faz-me desanimar no presente. Este, o do comandante, não foi senão o último desses episódios numa cronologia que vinha sendo bem recheada em todo o género de proezas.

Aconteceu o caso, como atrás contei, na noite do velório da minha saudosa mãe. Morreu a mamã da forma mais inesperada e horrível, embora agora me pareça que nem esse desaparecimento terá porventura sido fortuito, o que de facto entristece e faz duvidar no peito uma certa apreensão resignada, semelhante àquela que só poderá sentir-se na presença dum mistério tão fatídico quanto irresolúvel. Não houve volta a dar-lhe: a mamã saiu bem cedo para as compras na mercearia do bairro, gorro na cabeça e luvas de lã para resguardar do frio os ossos sensíveis – pensaria ainda por certo na minha reacção à revelação descuidada que fizera na noite anterior, entre chá, bolachas e gelado de pepitas, e na qual também eu matutava ainda com o corpo dormente e amornado pelo aconchego farto do quarto: a revelação de que o meu pai, o qual eu nunca conhecera, houvera sido outrora alguém famoso, que não teria valido de facto a pena – segundo a mãe – conhecê-lo enquanto vivo tendo em conta o seu feitio e que ele a fizera, aliás, prometer ainda em vida que nunca, sob hipótese ou circunstância alguma, me revelaria – a mim, seu filho – a identidade paterna. Ela cumprira escrupulosamente a promessa até este momento: mas começava a achar-se velha e a velhice pesava-lhe e amolecia-a, considerava que eu tinha o direito de saber o segredo, então tomou naquela noite a decisão que a sua consciência vinha mandando nos últimos tempos. «Era um homem, de qualquer modo, sem grandes escrúpulos…» disse ela, com um encolher de ombros indiferente, depois de revelar o nome verdadeiro do meu pai. Pensava a mamã concerteza ainda nesta conversa, e fechava o sobretudo com as suas mãos magrinhas ao cortante vento matinal, quando um limpa-neves desgovernado irrompeu no mapa astral do seu destino desenhando a rota mais trágica que se possa imaginar: abalroou-lhe o pequeno e surpreso corpo com grandes caninos metálicos chiando ansiosos de carne e matança, maxilares em chumbo tragando tudo, uma massa amarela maciça, bruta e gigantesca. Deixou somente as luvas quentes da mamã abandonadas no local do acidente e, atrás de si, o rasto horrível duma goteira pingando sangue na neve diáfana como pétalas de rosa soltas ao acaso.

Apesar do choque sofrido e da estupefacção perante a notícia, tratei de tudo com clareza de espírito e uma abnegação exemplar – ou, pelo menos, essa seria mais tarde a avaliação dos vizinhos ao felicitarem-me pelo discernimento que mostrara naquele momento tão conturbado –, de maneira que pelas sete da tarde desse dia estava já organizado um velório com toda a gente do bairro e alguns parentes distantes igualmente presentes, a casa adornada de cima a baixo com tecidos escuros e nobres formando pregas em meia-lua, candelabros antigos e anjos de cepo que velavam cuidadosos pelo sono eterno da mamã, além duma mesa bem composta na sala ao lado, guarnecida de comida em fartura e licores vários para o beberete. «O seu – salvo seja – velório está o máximo, deixe-me que lhe diga!» puxavam-me os convidados pelo cotovelo para segredar de parte ao meu ouvido, e assim não tenho qualquer vergonha (antes orgulho) em admitir, porque é bem revelador do esforço que empreendi para dignificar a memória da minha querida falecida, que durante o velório da mamã foram muito mais os que me deram os parabéns felicitando com graça o evento do que aqueles soturnos preocupados em dirigir-me com fingida mágoa os seus pêsames. Mas quando, passados poucos minutos sobre as dez da noite, o último convidado fechou atrás de si a pesada porta da rua, todos os impossíveis se precipitaram e os imponderáveis fizeram, por sua vez, questão de comparecer.

Despedi-me daquele antigo colega da mamã com um abraço longo e comovido que ele retribuiu sem pudor; porém, tinha eu justamente acabado de trancar a porta principal quando uma luz roxa, vinda da entrada da cozinha, me surpreendeu o rosto cansado. Dirigi-me para lá e fiquei lívido quando vi o fantasma espectral do meu pai – ou daquele que a minha mãe revelara ser o meu pai – aparentemente alheado, sentado num banco da cozinha a beber um uísque duplo. Não soube o que dizer; fiz uma cruz com os braços que também não surtiu efeito: nem dissolveu, fulminante, em fumo a aparição, nem dissuadiu o fantasma de beberricar o meu álcool. Sentei-me igualmente e, como ele parecia triste, dirigi-lhe a palavra quer para distraí-lo, quer para inteirar-me do que fazia ali. Conversámos uma boa hora sobre tudo: ele desmentiu a versão da mamã e negou que eu fosse seu filho, contudo pediu-me um favor que eu não poderia nunca recusar, sob pena duma maldição se vir a abater também sobre mim. Torna-se agora necessário esclarecer que este era um fantasma atormentado ao qual deveriam ser satisfeitos todos os pedidos, por mais absurdos ou incoerentes que pudessem parecer, pois quem assim não fizesse arriscava-se a ser contagiado com a maldição e a converter-se a si próprio em atormentado assombramento. «O meu terror foram os homens e a minha maldição foi entender mal o que era ter coragem. A fama também não ajudou…» confidenciou-me o fantasma corando de vergonha, o que de resto não será muito comum em massas transparentes, pálidas e flutuantes animadas pelo espírito dum morto. «Este fantasma é mais vivo e humano» pensei, e senti-me feliz com a possibilidade de ter sido aquele homem, na verdade, o meu pai. Falou comigo como se fôssemos amigos próximos há longo tempo – ou então seria a bebida surtindo já um efeito desinibidor nas suas cordas vocais –, explicou-me com vagar as razões que o animavam e, apesar da ideia me ter parecido ridícula, congratulei-me com a aparente sinceridade da aflição que transparecia no seu olhar obstinado e líquido. Tinha um problema: vinham invadindo os turistas, nos anos mais recentes, tanto os recantos íntimos da sua casa predilecta como a garrafeira do bar onde continuara a abastecer-se depois de morto, de forma que não só sentia a sua privacidade ser completamente devassada nos últimos tempos, como estava também sujeito aos efeitos desagradáveis da abstinência – vulgo delirium tremens – pelo facto de não poder visitar o bar com tanta regularidade como antigamente. Era um fantasma muito acabrunhado – mostrei compreender as suas preocupações com um leve e solidário aceno de cabeça. Depois fez-me o pedido: era um pedido muito simples, com todos os detalhes necessários para que eu pudesse executar o plano com sucesso, e francamente hesitei um bocado quando solicitou com uma expressão marota que eu prometesse satisfazer-lho. Afinal, tratava-se quase do equivalente a cremar ainda em vida um moribundo, juntando todas as suas memórias, roupas, peças e objectos pessoais, corações admiradores e peitos de entes queridos na mesma pira ardente e triunfal – além de poder vir ainda a ser considerado um crime. Sucedeu-me porém olhar o corpo rígido da mãe estendido na sala de jantar entre grinaldas e lembrei-me da maldição dos insurrectos, o que me dissuadiu imediatamente de negar qualquer pedido, além do velho fantasma me ter garantido, com uma piscadela de olho atrevida e cúmplice, que só assim poderia descansar em paz – decidi ceder e tentar satisfazer-lhe esse desejo derradeiro assim que pudesse. Prometi, embora não com entusiasmo. Satisfeito, pelo contrário, com aquilo que ouvira, o fantasma estalou cinco vezes os dedos da mão esquerda fazendo desaparecer a cada estalido uma parte do seu corpo, até sumir-se por completo na noite fria, bochechas e tudo, convertido numa luzinha lilás solitária que piscou lá fora três vezes sobre o monte gelado.

Estava a sala de jantar já na penumbra graças às velas derretidas, mas com uma atmosfera tépida que intensificava o aroma das flores, quando regressei para fazer companhia ao pobre corpo maltratado e órfão da minha mãe, sozinho na sala deserta. Maquilhou-se o mais que se pôde aquele cadáver, ainda assim estava a cara inchada e tivera de cobrir-se o tronco, do pescoço aos pés, com um lençol muito grosso para poupar às graves feridas ali expostas os olhos susceptíveis dos convidados. Assim que me sentei na cadeira preta à ilharga da defunta, a porta da frente – que eu trancara havia pouco – abriu-se e deixou entrar na casa uma enorme ventania nevada, além de três gatos assanhados que irromperam pela sala. Quando acabei de barricar a porta com um móvel baixo tive de esfregar os olhos com ambas as mãos, pois ao espreitar pela janela para medir a violência da tempestade pareceu-me ver lá fora, no lugar do monte, uma montanha tão alta como o Kilimanjaro. E qual não foi a minha surpresa ao observar que um dos gatos selvagens se erguia apenas sobre as patas traseiras e toureava os outros dois com galhardia e precisão, auxiliado por uma pequena capa vermelha! Decidi fechar as três feras na despensa: aí estava, vindo não sei donde, um grande marlim-azul suspenso dos cabides velhos da mamã pela barbatana traseira – as escamas cor de prata vibravam-lhe em reflexos múltiplos e o bico ao baixo, boca aberta, pingava água salgada pelo chão encerado –, além duma caçadeira de canos cerrados pousada a um canto da divisão, que não percebi nem com o maior esforço de raciocínio e memória como diabo fora ali parar. Assemelhavam-se, assim, a gatos à chuva, os três felinos olhando-me humildes, com a neve derretendo no pêlo espesso e sentados sob o chuveiro salgado que caía da boca do grande peixe. «Agora, vamos cá ver isto…» disse eu, agachando-me para apanhar a capa que o gato grande segurava entre as garras – a besta não ofereceu resistência de maior e pensei que talvez o acessório me viesse a dar jeito para aquecer o colo durante a noite mais longa da minha vida. Trancada a porta da despensa, barricada também esta com um segundo móvel baixo, voltei a sentar-me, aliviado, na cadeira junto da mamã – «O que seria dos homens sem as mulheres» reflecti ao avistar a sua cara impassível que, devo dizê-lo, me tranquilizou bastante – e adormeci. Acordei sobressaltado ao som dum repicar de sinos ensurdecedor: pude observar aterrorizado que a capa vermelha sobre o meu colo se tinha desfeito durante o sono numa poça de sangue cor de cereja e pegajosa, isto apesar de, aparentemente, eu próprio me encontrar ileso. Estiquei o dedo indicador e mergulhei-o na poça, em seguida ergui-o à altura da boca e cheirei: era licor de cereja, o líquido que ali estava… Não pude encontrar explicações para o facto, o certo é que já me distraía com a percepção das emanações tépidas – parecidas com aquelas que se sentem quando nos sentamos à roda dum braseiro – que exalavam do corpo da minha mãe, lá bem do fundo dos seus setenta e seis anos atropelados havia quase um dia, e as quais, na realidade, muito estranhei. Faltavam só dois pares de horas para o funeral, tive de mudar de roupa para não causar estranheza entre as gentes presentes e de novo o Kilimanjaro apareceu como que acenando na moldura gelada da minha janela. Lembro-me de ter pensado: «E agora, como é que eu vou explicar às visitas que o Kilimanjaro apareceu à minha porta? Esta casa está tão animada que nem parece haver velório, antes uma festa: ora bolas, já teremos chegado a Paris?!», mas os meus receios mostraram-se infundados porque à hora combinada os senhores da funerária e os enlutados carpindo compareceram lá em casa, tudo parecendo nessa altura normal. Digo “parecendo” porque de novo avistei o fantasma no decorrer do funeral saltitando entre duas lápides gris ali vizinhas e, para ser franco, estranhas coisas se têm passado com aquela campa nos dois meses últimos, as quais não precisarei por respeito à memória da minha falecida mãe.

Têm sido os dias, desde então e regra geral, senão morrinhentos, pelo menos extremamente desgastantes para mim. Começaram a ocorrer estranhos fenómenos com a maior regularidade, acontecimentos tão bizarros que antes da morte da mãe teriam sido completamente impensáveis ou chocantes e que – não fosse a presença assídua do fantasma chorando com os cotovelos apoiados sobre a minha secretária na discreta solidão nocturna – bastariam para eu mesmo pôr em dúvida a minha saúde mental. O caso vinha sendo, no entanto, de tal modo que a assombração paterna, aquele espectro misantropo de gente, desejava ver a minha promessa cumprida com a maior rapidez possível para assim poder descansar em paz – chantageava-me, portanto, com toda a espécie de ocorrências estapafúrdias e uma tristeza fecunda empenhada em molhar os meus papéis de trabalho, se possível inutilizando-os para sempre. Isto irritava-me profundamente. Quando me apercebi dos seus intentos, o dilema da promessa deu-me cabo dos nervos, tive de ir ao médico e começar a tomar calmantes; não resolvi a insónia com chás de ervas, no entanto os sedativos atenuaram-na consideravelmente, ainda que com prejuízo da firmeza manual. Mas o fantasma prosseguiu na sua senda, implacável como nunca: ora me apareciam escalpes de veado embalsamados e pendurados sobre a lareira, ora uma cana de pesca enfiada no ralo do lavatório com o bilhetinho «Sê um homem» espetado no molinete, ora a espinha do marlim-azul – única parte do peixe que logrei salvar da fúria dos gatos braviscos após a quarentena à qual os submetera –, que eu (juro) tencionava entregar às autoridades competentes para averiguações adicionais, voava por artes mágicas dissuadindo o meu sensato intento e desaparecendo debaixo do tapete persa sem deixar nenhum rasto. Até que um dia resolvi ceder. Estive em vias de perder o trabalho; ao fim e ao cabo optei por tirar umas curtas férias e resolver em definitivo o assunto: ficaria ao menos de consciência limpa e promessa cumprida, que o plano a executar não seria tão custoso que o não pudesse eu cumprir (e poderia outro alguém fazê-lo?) do modo mais discreto e eficaz possível, sem deixar os mínimos indícios. «Está bem, já entendi a mensagem: acho que chegou a hora de partir» comuniquei eu nessa noite ao fantasma, que se desfazia em soluços, gemidos e fluídos lacrimosos dissolvendo num charco os dossiers dos meus últimos seis meses de trabalho, plangente e ruidoso como uma harpa desafinada. Contive a ira e virei costas, enquanto ele desatou a celebrar o facto com gargalhadas sonoras, as quais ignorei. Chegado ao fundo do escritório, encarei-o com uma expressão descontente e esforcei-me por conferir um tom imperativo à minha voz: «Mas faça o favor de não se esquecer de secar toda essa papelada ainda esta noite!».

Era quase sol posto quando aportámos nas Bimini, vieram receber-nos as aves aquáticas em grande algazarra, recortadas a negro contra um céu vernal que desmaiava do azul moreno ao roxo pungente. Comprei um pacote turístico para oito dias onde somente estava prevista uma passagem fugaz por estas ilhas, no entanto eu decidira ficar três noites até completar com perfeição o serviço. Seguiria à risca as indicações do maldito fantasma, que me vinha vigiando até na pessoa do comandante da embarcação: só decidi realmente fazê-lo quando cheguei às Bimini e me apercebi desse detalhe; entregaria por completo o meu destino nas suas mãos e a minha fé na correcção do plano esboçado, antes de mim, por alguém cujos intentos eu não pudera senão entrever ao de leve ou com bastante imprecisão. Como vinha a noite debruçada sobre nós quando pisámos o passadiço do porto, decidi dirigir-me rapidamente para o hotel, pousar a bagagem e recuperar da jornada. Na manhã seguinte, depois dum belo banho na praia quase deserta – tão agradável a água fresca e mansa logo ao amanhecer, provocando um arrepio saudável na coluna que nos desperta com langor para um novo dia –, fui à procura do Compleat Angler e da casa do famoso escritor, seguindo de memória as indicações precisas do fantasma e os desenhos dum novo mapa das Bimini fornecido no hotel. Alcancei o local por volta do meio-dia, depois de ter tomado um revigorante pequeno-almoço ao lado de três pescadores locais e me ter perdido um par de vezes, a segunda das quais intencionalmente, a observar outras atracções das ilhas.

Os turistas sabiam exactamente ao que vinham e onde poderiam encontrar aquilo que procuravam, como um enxame de numerosas abelhas em busca do pólen mais precioso: alinhavam-se cá fora para entrar na casa, numa fila ordenada que serpenteava ainda uns bons quinhentos metros ao longo do muro exterior. Vinham famílias inteiras com bebés de colo nos quais as mães enfiavam bonés coloridos e óculos escuros ao mesmo tempo que lhes tentavam sossegar o choro à custa de gelados açucarados, vinham também adolescentes com pacotes cheios de frango frito a lambuzar as mãos que limpariam mais tarde nas cortinas da casa-museu, vinham finalmente coleccionadores de todos os manuscritos inéditos e objectos pessoais nos quais Hemingway tivesse alguma vez, ainda que por breves segundos, pousado as suas mãos. À minha frente na fila, estava um senhor respeitável segurando com um guardanapo de pano muito alvo um copo de vidro na mão: queria mostrá-lo ao responsável pelo museu porque garantia que “mister Ernest” tinha deixado ali, sobre aquela superfície cristalina e transluzente ao sol forte dos trópicos pela décima-segunda hora do dia, a sua preciosa impressão digital – segurando o copo com dois dedos apenas pelo seu finíssimo pé, disse-me o coleccionador que tencionava exigir um farto reembolso às autoridades responsáveis para poder deixar aquele exemplar valioso numa vitrina do museu. Nesse momento, senti certa pena de que o fantasma não deixasse marcas de dedos visíveis nos objectos em que tocava; pareceu-me somente estranho que se tratasse dum copo tão delicado e não dum recipiente bem maciço e másculo, destinado preferencialmente a acolher uísque, mas não verbalizei esta dúvida porque tencionava passar despercebido e não quis melindrar o meu vizinho. Meia hora depois passei o portão de arco ogival, segui o passeio que rasgava o jardim e entrei no Compleat Angler muito mal-humorado – tinha os pés francamente doridos. Encontravam-se sentados ao balcão dois turistas americanos com grandes canecas de cerveja amolecendo na sua frente e um holandês espremido entre ambos, que devorava uma tacinha de amendoins: falavam sobre O Velho e O Mar trocando ideias e confrontando opiniões divergentes. «Estes nabos – pensei –, além de invadirem um espaço que não lhes pertence, ainda esvaziam no bar todas as garrafas que podem e os depósitos com provisões de malte». Sentei-me numa mesa um pouco distante e pedi uma água com gás – a qual sabia que não viria a fazer falta a ninguém posteriormente –, em seguida descalcei os sapatos de verão que trazia, dobrei o mapa do hotel em forma de leque e, com um entusiasmo repentino, pus-me a observar todos os pormenores relacionados com o Bar que necessitaria em absoluto de saber. Lancei com bonomia um último olhar pelo espaço à saída, como quem abandona o lar um tanto reconfortado.

«Com que então, é esta a casa» pensei inquieto ao entrar no museu. Estavam lá todos os objectos pessoais que eu nunca vira antes e, no entanto, já sabia de cor, num misto de solenidade poeirenta e hino à mortandade dos bichos: instrumentos de escrita diversos misturados com armas de fogo e papéis antigos, candelabros sisudos com marcas de balas maculando os seus suportes esmaltados, aquilo que eu não soube se seriam punhais ou abre-cartas afiados em tamanho gigante; numerosos animais de olhos abertos espreitavam-nos aterrorizados em cada recanto da casa e, num aparte de vida quase comovente, lá estavam as nódoas gordurosas deixadas por alguns dedos adolescentes nas cortinas sombrias. «Kentucky Fried Chicken» murmurei divertido, enquanto lançava um olhar cúmplice ao casal de turistas alemães que entrara na sala comigo; dois pares recém-chegados de visitantes japoneses circulavam além disso pelo escritório, denotando uma curiosidade discreta e reverente. Mergulhada estava a casa, devido às enormes portadas abertas, numa luz branca soberba, só de vez em quando matizada pela sombra ténue das palmeiras altas ao vento. Não me demorei naquele lugar além do tempo necessário para vislumbrar uma vez mais o rosto do fantasma piscando-me, maroto, um olho safira no espelho do armário antigo (não tive coragem de não retribuir a cortesia…) e para observar todos os pormenores relacionados com a Casa que eu necessitaria em absoluto de saber.

Nessa noite mudei de hotel, tal como houvera previsto: instalei-me num lugar mais modesto, sem casa-de-banho privativa, e numa ilha diferente daquela onde se encontrava a casa-museu. Acordei bem cedo para visitar o Sloppy Joe’s Bar, um lugar obrigatório que o fantasma me aconselhara sem hesitações: não pude discernir lá dentro mais do que cem cabeças de turistas, tão ocupados a disparar máquinas fotográficas em redor como a retirar o sossego aos locais presentes, os quais massacravam insistentemente com perguntas irrisórias acerca dum americano barbudo que por ali andara na década de trinta do século passado, ainda a maior parte dos presentes não seriam concerteza nascidos. Este cenário entristeceu-me e galvanizou-me, encheu-me duma raiva incrível que foi aumentando ao longo do dia, tendo ajudado a que eu pudesse satisfazer mais tarde, sem vacilar um segundo, o desejo sórdido que a aventesma me pedira. Passei a tarde na praia a domar a ira como conseguia e a afundar as pernas entre a espuma das diferentes marés, comprei para a madrugada seguinte um lugar no barco da travessia e esperei que o sol se apagasse em chamas sobre o Atlântico, numa festa vibrante; fui então buscar as malas ao humilde hotel e trouxe-as para uma pensão ainda pior situada na cidade da casa-museu, tendo o cuidado de me instalar com um nome falso num quarto do rés-do-chão, pagando antecipadamente a noite dormida. Não desfiz as malas; tranquei a porta do quarto por dentro e saí imediatamente para a rua através da janela fronteira, que deixei aberta no fecho. Caminhava descontraído pelo passeio, saboreando a fresquidão da noite com uma pequena mochila às costas, no interior da qual transportava seis latas de conserva e garrafas de iogurte usadas, cheias de gasolina, uma caixa com seis fósforos e dois rastilhos de seis metros (seguindo à risca as indicações do fantasma, o número seis impunha-se por superstição, sabedoria ou outra razão qualquer da minha pessoa ainda desconhecida). Não foi difícil cumprir o plano com êxito, tão-pouco regressar à pensão, apanhar as malas e seguir nessa mesma madrugada a bordo do barco da travessia para um campo de golfe luxuoso plantado em pleno mar caribenho, aproveitando assim o que me restava daquele excepcional pacote de férias.

 

A GROSELHA QUE PARIU UM RATO

OU

O VIOLÃOTISTA MIMADO

 

O cabo-verdiano Mané veio do Sal para Lisboa sem poiso fixo. Tinha dotes de estrela, o cabo-verdiano Mané. Houve quem o julgasse indiano em vacations. Uma firmeza no porte, certo ar distinto; aquela beleza que só sai quando as raças se cruzam e cumprimentam uma à outra muito bem cumprimentadas: se abraçam, se enrolam, se amam, florescem. Depois há apenas que borrifar a inflorescência dia sim, dia não e colocar as culturas entrelaçadas em ambiente quente, para facilitar o tropismo adicionando ornamento. César Gustavo recebeu Mané de braços abertos: com uma cachupa numa das mãos, um violão na outra. Escolheu-se gente predilecta para festejar a chegada de Mané, mulatas bonitas, homens tocantes e tocadoiros com sonhos-acordes morrendo fininho na ponta dos dedos.

Mané vinha da Praia, da sombra de seis irmãs no luar das ondas, seis palmeiras de fibra ao vento. Havia o vento-rajada nos dias de Cabo-Verde, mas um bafo morno subindo da terra podia sentir quem se sentava nas soleiras tocando até de madrugada. Na razão em que as ervas secam, os ouvidos crescem em Cabo-Verde. Tudo o mais é Sal ubridade (nas ofertas vindas do fundo do coração), ou Sal ombridade (nos abraços para aconchegá-lo). O mar turquesa entra pelos olhos adentro, faz fantasias crescerem nos corpos esbeltos, escorregadios.

Dona Rigoberta, larga nas cinturas de apetites grandes, não tem quem a financie: marido morreu faz seis anos quando Mané – seu filhinho único menino – decidiu vir para Portugal. Querido Mané das tendências de sua mãe: agora longe, quem o diria… tocador de guitarra como nenhum outro moço improvisante, não só na Praia como nas dez ilhas por inteiro (Mindelo incluído). Mané foi crescendo depressa sob o sol abrasante, os mergulhos mais fundos nas águas atlânticas. Tinha um grupo de meninos e meninas na altura em que começou a namorar, lá pelos catorze; fez escola de xoxo, veio a grande paixão pela Cristina. Não bebe pilecas, não planta descalço: homem cauteloso. O grupo passa tardes pelas ruas e noites quentes ao serão em mesas de bancos corridos, comendo, bebendo, cantando toda a gente e cada qual por sua vez sem desculpas de aclarar gargantas ou rouquidões imprevistas.

Foi um menino bom e mimado, Mané, construindo seus próprios brinquedos – carros em latão, rodas em madeira, fios de pesca –, absorto de compenetrado nas cócoras duma esquina qualquer. Foi menino-peixe fora de água ordenando casas e multidões, exércitos inteiros no chão de poeira. Ditador exigente, aventureiro, pirata; foi cowboy e pelintra, médio esquerdo ou direito, avançado, zagueiro atento a resguardar uma baliza erguida a pilares de lata mas invicta na derrota goleada. Correu nos morros juntando calhaus para as cabanas de fingir, aglomerou conchas beijando-se num colar de presente, anzolou percas no sassarico dos botes das ilhas. Chapinhou nas vagas seus caprichos e ilusões até a um amanhecer adolescente.

Manezinho veio ao mundo a quatro de Fevereiro de mil novecentos e setenta e sete numa manhã de neblina – dom sebastiãoinsularidade –, o número sete na produção de dona Rigoberta e Francisco de Assis, que até à data só era esmerada nas rosas-palmeira femininas em linha de montagem, a perfazerem seis nuns doze anos totais. Nessa alvorada andava Francisco caçando saias[1] no mar chico[2], veio Teodor di Nha Juliet esperá-lo na praia da boa-nova, nascido o garoto de bela saúde e a mãe mantendo aquela que trazia. “Rosa Xavier presidiu ao parto puxando/ a crianço para a madrugada rubra e macia/ logo assim se soube que o nascido seria sem engano/ um lindo Mané no lugar de Maria” – anunciou Teodor a Francisco exausto, trazendo também umas quantas palombetas[3] ainda lagarteando na quilha do bote molhado. Deste modo se baptizou Mané o único rapaz na descendência de Chico Assis e dona Rigoberta, destinado a mergulhador de lagostas ou pescador cá dos cimos na ajuda do pai, preciosa para nove bocas. O menino cresceu – apadrinhado por Rosa e Teodor di Nha Juliet –, conhecendo de cor as diferenças entre bedja, dorado, tainha, merr, palombeta, papagaio, benteidja, sarbonete, garoupa, moreia ou salmão, goraje, saia, melon e serra[4], além de assustado dos ouvidos pelos monstros das profundezas, que lhe ensinaram mais que tudo o respeito pelo mar. Foi esse respeito que, lá pelos treze anos, o levou, para grande desgosto do pai, a desistir do mergulho em favor de buscar sua arte na música da guitarra.

Mas já desde bem pequenino Mané mostrava uma outra inclinação atroz, a saber: o vício da groselha. Ele tomava-a ao desjejum, ao almoço, ao jantar e na madrugada, chegando inclusivé a levantar-se durante a noite para tomar um copo geladinho.

– Tu ganhas a língua vermelha! – ameaçava dona Rigoberta, seu único ameaço ao menino tão predilecto.

O menino, porém, nem ver a ouvia, bebia seu pozinho e escapava-se no trilho até à praça das brincadeiras fundamentais. Aziago o dia em que outro garoto com pedrada certeira partiu um dente de leite a Mané e o menino, contente, apareceu em casa a mostrar à sua mana segunda a contar do fim (ou melhor, das primeiras parições da mamã) groselha nascida na sua boca, todo convencido que em botando açúcar podia-se beber e que seu corpo era feito de groselha na porção em que a água o constitui.

– Se eu faço arranhão sai groselha! – teimava o menino fascinado para sua mana desesperando.

Outro traço distintivo de Mané é a boina aos quadrados amarelos, que cresceu com ele na cabeça em idade e se moldou ajustando-se-lhe:

– A boina fala comigo! – garantia o menino mimado para não tirá-la na hora de dormir e poder flutuar com ela na banheira. Nem mesmo rente ao mar Mané se apartava da boina e quanto mais o sal a descoloria mais o rapaz se afeiçoava a ela. Mamã e esta ou outra mana fizeram outra e outra boina, sempre iguais no tecido guardado durante anos num armário para salvar de virtude a sorte de Mané, ou fazer o moço já jovem um brilharete ao violão em seus tons de chapéu douralíneos.

Mané enxotava enérgico o porco pelos oito ou nove anos e não suportava seus grunhidos animais de maneira nenhuma:

– Só gosto di bicho d’água! – gritava após espantar o animal, enojando-o de peçonhento. Negava-se nessa altura a comê-lo pelo Ano Novo, preferindo o djeu[5] menos gabado de seus pais acompanhado de… groselha com sumo de limão. O horror dos porcos passou na juventude, quando o amor das garotas foi desvelado: Juquim partilhava esses fervores de Mané pelas moças cochichando tardes inteiras na orla da praia ou acompanhando-o até junto delas numa camaradagem comovente.

Não conheceu outros portos, Mané, antes dos dezasseis na costa de Marrocos, abrigado de medo na tempestade. Por essa idade já sua ideia rondava toda em torno da música, pranto llorando solo e infinito até aos equadores da morna e às amplidões de anca na coladera, na sambuna ou na cantadeira de finaçon[6]. Treza di Nha Juliet, filha de Teodor, tornou-se sua melhor paixão, querida em casa de Rigoberta como a sétima fêmea-filha dum harém desconhecido e exigente – Mané talvez o maestro desse conjunto ao seu redor; órbitas do seu sol essas mulheres, algumas já casadas, sentiria quem sabe o rapaz. Cresceu nos bares, trocando a groselha por grogue, as devinas[7] e coladeras por funaná[8]; manteve porém a boina e acrescentou-lhe uma camisa branca ora aos peixes, ora aos barcos, ora às borboletas, suas preferidas de asas. Conheceu dólares pela mão dos primos e Estados Unidos numa viagem curta; regressou depressa a Cabo-Verde a tocar nas saias de suas irmãs: os bancos que mais o fascinaram foram os do coral do Tchuklasta vistos lá de cima nos olhos do avião, grande que lhe parecera à partida e pequeno se mostrando no regresso para tanta gente apinhamontoada.

Mané sachou milho e transportou correios durante o dia para ajudar à mamã depois que Chico de Assis viu explodir-lhe na cara um motor de barco, enquanto tocava na madrugada pelos hotéis; trocou Treza di Nha Juliet por uma namorada estrangeira e de novo voltou ao colo quente de Treza, mãos abertas para ele, a rapariga toda humilhada. Por causa das desavenças com Treza e da morte do pai, a boina de Mané começou a andar cambaleante do grogue, os acordes saindo do violão desavindos com as notas afinadas e protestos nos hotéis por causa que os clientes insatisfeitos na melodia. Treza se abandonou de Mané e foi a gota de água: cabrito mais mole de embriaguez nunca na nossa terra antes nem depois, que metia dó de se respirar o bafo aguardento.

Foi então que César Augusto, anjo-da-guarda de Mané desde as infâncias-patifarias nas quais o menino se enrolava, mandou chamá-lo de Portugal, onde se dera bem cursando e trabalhando – sabia César sobretudo como esse jardim de fêmeas sufocava Mané, comendo-lhe os pés passeantes nas flores carnívoras do pecado. A recepção foi em grande, entre amigos e parentes afastados; na festa apresentaram Mané a Mariluna, que em suas curvaturas e simpatias logo fez o rapaz enterrar memórias amargas de Treza. Ficou fascinado descobrindo a luz da noite abrindo estradas no rosto de Mariluna e o seu braço trémulo tocando o dela, encantador e macio, debruçado na varanda da sala festejante sobre a madrugada em flor. Mané, de sapatilha amarela condizendo na boina, negou o grogue da noite, o que aos restantes convivas muito surpreendeu; assim, debruçado na varanda com o cabelo de Mariluna encaracolando a seu lado o vento das estrelas, teve um apetite repentino:

– Sabe o que eu queria agora, Mariluna? Uma groselha bem geladinha… Podia morrer feliz aqui a seu lado.

A rapariga soltou uma gargalhada animada:

– Você também tem o vício da groselha?! – só então Mané reparou numa pulseira com ratinhos de prata, seguindo todos em fila, grandes orelhas e olhos encarnado-rubi como as bagas da groselha, que acarinhava a noite com brilhos no pulso de Mariluna – Essa pulseira fala comigo… – justificou ela envergonhada – É uma excepção: só gosto di bichos d’água! – e a rapariga deixou escapar de novo uma risada muito límpida – Mas, por favor, bô não me fanique aqui, que eu num tenho grande ouvido prá iscutá música di defunte…

 

[1]  Espécie de peixe cabo-verdiano.

[2]  Diz-se do mar plano ou liso, sem ondas.

[3]  Tipo de peixe pescado em Cabo-Verde e utilizado, por exemplo, na sopa.

[4]  Diversas variedades de peixe cabo-verdiano, segundo os nomes crioulos.

[5]  Peixe em português designado por ilhéu, da família da cavala, apreciado por pescadores desportivos e muito usado nas ementas dos hotéis em Cabo-Verde, ainda que de menor preferência entre os locais.

[6]  Sambuna (parte dançante) e finaçon (composição poética geralmente entoada por mulheres, consistindo em conselhos ou versando sobre atitudes a ter em sociedade) são as duas partes nas quais se divide o batuque, ritmo típico da ilha de Santiago e de origens marcadamente africanas, tal como o funaná.

[7]  Músicas religiosas.

[8] Ritmo nascido do casamento duma gaita ou acordeão com um ferrinho, mas que actualmente pode incorporar até elementos electrónicos.

 

 

BOCA DA TROMPETE

 

– Meu Deus, como é que tão longe da tua terra isso foi acontecer? – o Frederico tirou a boina e coçou a careca lentamente, os dedos recurvados sobre o polimento da epiderme, triste piássaba.

A menina Constança subia sempre as escadas arfando do decote, sentava-se à varanda de madeira cáustica olhando o mar em delongas de laranjadas e bolachas inglesas de estalar no dente dispostas de forma concêntrica no pratinho de porcelanosa branca envernizada, um vidrado que não desfalecia com o ar agreste vindo do oceano repleto de sal, iodo e do grasnar das gaivotas espelhando o sol. Ficava tardes esquecidas a olhar o farol listrado e as correntes de mar, a nossa princesa da varanda de madeira vermelha onde trepam caracóis de casca espiralada assumindo diversas tonalidades conforme os limos da estação. Cada joelho dela um arbusto longo com o qual implora, roçando as colunas torneadas do gradeamento em madeira, atenções felinas que não recebe ao perto de machos passando ao longe sobre a ponte ou no passeio: «Uma gata, reparem! Uma gata lá em cima!», eriçavam-se eles apontando uns aos outros na distância a morena de cabelo ondulado e pele tostada entre assobios que se misturavam com o anúncio breve das sereias. Após subir as escadas rebofuda e roçar-se no varandim encarnado que ansiava com desprezo pelo calor másculo, a nossa sereia sentava-se no cadeirão de verga vendo o sol nascer, crescer, bailar no horizonte a ensaiar na água brilhos dispersos. Abaixo do corrimão onde se prostrava, num canteiro quase junto à areia, flores: são carne de cereja estas flores, tenra e fibrosa. O atropelamento mortal da Boca do Inferno foi por isso um acontecimento brutal e apócrifo a suspender por um fio os doces usos da vida pacata que levava a melosa princesa inalcançável da casa acastelada. Tão flexível de lombos, a pequena, quanto os gatos do capelista dos postais da Boca do Inferno a espreguiçarem-se ao sol nuns tocos ásperos de oliveira. É neste cabo que finalmente cheira a mar, uns calhaus roliços cor de âmbar lá em baixo, pontes de rocha. Heróica de pé, a motoreta Trendline do sacristão-capelista, inolvidável, cyan e esmaltada. Há muros entaipados com buxos muito verdes, mansões parabólicas. Sol brilhando no espaço, uma correnteza fluente, muitas correntezas escamosas. À noitinha, gaivota Irmã em voo asa-delta sob a lua:

ab

Tem dias que a princesa solta trança e enverga camisola às riscas como o farol de Santa Marta, lamparinas acesas no tecto da varanda romanticizam a coisa.

Estendia-se um corredor de sol cadente sobre o mar camomila na penugem aérea dessa manhã. Dizzie Gallespie[1] com uma boina na cabeça acabava de passar na calçada atrasado para um show em hora de fecho – ou assim considerava a princesa tostada o homem apressado na rua –, sob o varandim magenta e altaneiro, quando o caso sucedeu. Dizzie Gallespie passou o Villa Galé, mudou de passeio: caminhando no tartan das bicicletas com o sol a adornar-lhe a pele sépia e distraído a olhar um poncho preto – tamanho XXL – com flocos de neve brancos que um feirante acabara de suspender do toldo mole cor de galão por um cabide trémulo, foi atropelado de forma brutal por uma bicicleta que, acabando de desenhar uma curva, veio embater-lhe pelas costas a velocidade muito acelerada tendo mesmo, segundo um detalhe mórbido nos jornais do dia seguinte, impresso o rasto borrachudo a todo o comprimento da coluna vertebral do jazzeur. A fatalidade não passou portanto indiferente nem aos media da região nem aos inúmeros corredores de fundo e meio-fundo incautos com pendentes de cães, ciclistas ou amigos sempre a acompanhá-los nos passeios, desses que se detêm de vez em quando no chafarizinho em granito da Boca do Inferno para uma poça d’água na palma da mão e umas gotas preguiçosas a escorrerem dos dedos frios. Entre os arbustos, os buxos e as moitinhas marítimas da orla costeira, Dizzie pôde entrever, antes de finar-se de modo inesperado e trágico, uma idosa que descalçava as pantufas sentada nas rochas com cuidados e vagares de senhora experimentada: tacteou com os dedos a pedra de crateras, massajou as plantas dos pés muitíssimo devagar, começou a fazer uma espécie de fisioterapia (por baixo da saia modesta avistava-se uma joelheira elástica na rótula esquerda) com movimentos lentos. Dizzie viu também, antes de falecer, um mendigo fumando nas escarpas. E Dizzie de chapéu de aba, fato escuro pré-defunto, caminhava em passos largos na calçada com uma trompete luzidia em tons açafrão presa por baixo do sovaco, ambas as mãos nos bolsos das calças em sarja castanha-escura. Assobiava pela manhã uma melodia dispersa que haveria de tocar mais logo na trompete de orquestra para deleite dos espiões reformados no Hotel Palace. Senhores enigmáticos de cabelos grisalhos e amarelos, olhos nórdicos, sotaques exóticos ou agrestes conforme as andanças do passado – que não pertenciam já de nascença a terra nenhuma, muito mais denunciando aquelas que os haviam acolhido na condição de forasteiros à paisana –, laços às bolinhas ou de tons pouco discretos como um salmão atrevido. A bicicleta passou-lhe com o rodado sobre a coluna vertebral (tal qual uma alcatifa vermelha engomada pelo ferro à medida que se desenrola), Dizzie agonizou e a trompete dourada deu um salto no ar. O capelista da Boca do Inferno resgatou o instrumento do espaço enquanto olhava Dizzie horrorizado:

– Meu Deus, como é que tão longe da tua terra isso foi acontecer? – murmurou baixinho em tom de condolência, deixando uma mão escorregar ao de leve a limpar a trompete e comprimindo em seguida o botão do Ré com qualquer dedo ao acaso, em jeito de elegia fúnebre.

Os gatos do capelista miaram gemidos arrastados de felino, triste choro selvagem, uma andorinha do mar veio pousar sobre o chapéu de aba de Gallespie amarrotado no tartan, sujo do óleo das correntes da bicicleta. O ciclista estupefacto, um arranhão único no joelho, colocou os óculos espelhados sobre o cabelo molhado pelo esforço muscular, abriu a boca numa tentativa vã: emudecera. Ainda gesticulou bom quarto de hora (já a polícia, a ambulância e toda a espécie de curiosos se aglomeravam) quando soltou a primeira sílaba audível – ironia do destino, seguiu-se aquilo que parecia uma espécie de melodia engendrada por Gallespie até que a garganta do rapaz pudesse articular uma só frase com sentido.

– Não tenho a culpa, juro! – implorou o ciclista apertado na roupa de lycra de mãos juntas e olhar aterrado antes de benzer-se com devoção fervorosa. Tirou o fio de ouro com crucifixo para fora da camisola dos treinos, beijou um cristo minúsculo descaracterizado pela dor, aumentou-lhe nos olhos o sobressalto ao observar de novo o cadáver mulato e esguio estirado no chão. A princesa desceu da varanda para junto da plebe pela primeira vez que se soubesse em longos anos e veio dar o ombro tostado às lágrimas aflitas do ciclista, para inveja masculina geral. O vagabundo do tabaco de enrolar ofereceu-se para ajudar na fisioterapia da velhinha das pantufas, que entretanto viera sentar-se no chafariz em granito a rodar o tornozelo que uma artrite corroía com vagares de malvadez. Foi então que uma senhora polícia, examinando os documentos nos bolsos do finado, se virou para o capelista dos postais (que examinava já a possibilidade de expôr um ou outro artigo sobre os botões da trompete, em homenagem ao amigo) com a voz autoritária e um dedo em gancho:

– Chegue aqui! Sabe alguma coisa disto?? – perguntou a senhora comissária ríspida e feroz, algo máscula.

O capelista de gato amarelo no regaço e trompete ao ombro como um enxadão leu atento um papelito sarnento que a comissária lhe estendia (pertencente de origem a um bloco de linhas), levou uma mão à boca deixando o gato cair no chão, exclamou siderado:

– Valha-nos Nossa Senhora! Eu não, minha senhora, tinha eu lá maneira de saber! S’eu soubesse não tinha acontecido… Valha-nos Deus!!

A comissária revelou o conteúdo do papel a um fotojornalista mais curioso, toda a assistência de pescoços esticados se surpreendeu em seguida:

«Eu, Dizzy Gillespie de nome – não tendo em conta as intromissões da oralidade –, trompetista de profissão faz trinta e dois anos em Agosto, declaro a quem por misericórdia e bondade de Deus encontrar este papel que decidi pôr termo à vida no dia 22 de Março de 2004, no passeio para ciclistas da Boca do Inferno, atirando de propósito e por livre vontade este corpo cansado contra um velocípede circulando a alta velocidade na pista, pelos meus cálculos prévios às 10h47m da manhã sensivelmente.

Decidi morrer frente ao mar e às velas brancas espetadas contra o céu no horizonte líquido: não tenham, por isso, qualquer pena de mim.

                                                                                                             Assinado:

                                                                                                         O vosso amigo

                                                                                                        Dizzie Gallespie

 

P.S. – Além do mais, estou certo que Deus tem uma banda de jazz à minha espera no céu, aguardando ansiosa pela orientação sábia deste vosso amigo… Cumprimentos jazzísticos.»

 

– Bom, sempre achei esquisito que os querubins tivessem trombeta, agora isto acho ridículo! – indignou-se o ciclista, reagindo por fim – E quem me paga o arranjo da biciclete??

– Biciclete rima com chiclete… – notou a nossa princesa finalmente alcançável rodeando-lhe o pescoço com os dois braços e mascando de boca aberta a pastilha nipónica de aumentar os seios que faz furor por essa Europa fora – Quanto é o prejuízo, amor?

Os masculinos das corridas desdenharam o físico do ciclista à medida que ela se debruçava em atenções exageradas sobre o campeão soltando a trança, de peito a crescer-lhe na camisola às riscas moda farol.

– Bom, pouco mais de vinte contos será, mas há também a considerar os danos morais e a maçada… – aventou o campeão com ares de ingénuo.

– O senhor não tente, que ele era pobrezinho… – advertiu zangado o capelista para salvaguardar qualquer golpe oportuno.

O corpo de Dizzy-Dizzie coberto por um lençol alvo foi nesse momento recolhido para o interior duma ambulância, com o chapéu amolgado e sujo pousado sobre a barriga em jeito de coroa fúnebre.

– Eu era o melhor amigo dele: tenho direito à recordação… Não é, Faneco? – concluiu o capelista definitivo exibindo a trompete e olhando com tristeza o gato amarelo que lagartixava de barriga para cima na terra quente, ausente de tudo aquilo. Ninguém se lhe opôs.

– Ainda temos de fazer averiguações, ver o que deixou em herança… Talvez mais tarde possamos compensá-lo. – assegurou a comissária ao campeão das bicicletas de modo seguro e competente.

O capelista afastou-se devagar a mancar duma perna, o peso todo do mundo sobre dois ombros demasiado pequenos para suportar a morte do amigo. Dirigiu-se até à pontezinha em pedra na companhia do Faneco, olhou para baixo e ficou a pensar como o mundo parecia virado do avesso ultimamente: caminhava no sentido errado ou girava numa direcção enganosa, tanto faz. Quantos amigos lhe restavam? Eram sobretudo os amigos não-humanos que o escutavam e lhe acudiam nos últimos tempos. Abanou a cabeça incrédulo:

– C’um caneco, Faneco… – e voltou ao posto de venda no interior da capelinha com o ar salgado que lhe enchia os pulmões a conferir algum alento aos seus passos assiméticos. Sentou-se, tirou a boina, coçou a careca devagar, pôs-se a engraxar um sapato roto no lugar do mindinho para ocupar a cabeça e as mãos nalguma coisa.

À medida que a polícia desmobilizava, a nossa princesa estreou-se a convidar alguém para uns scones na sua varanda fuchsia: o ciclista campeão desgostoso do atropelamento. Os restantes homens invejavam cá de baixo o rapaz à medida que a dona da casa acastelada se desiludia: ficou a saber que o moço morava bastante atrás, numa casa com marquise de losangos laranja com vista para a baía e os penteados rastafarianos das palmeiras, no entanto era pintor de construção, ocupação pouco digna para um pretendente a uma donzela de sangue azul com ligações directas à monarquia. O pintor ensaiou o charme numa chalaça a respeito das ligações directas envolvendo o furto de automóveis e motocicletas na adolescência, o que a fez expulsá-lo da varanda com grande escândalo, erguendo ao ar uma cadeira em bambu e palhinha (mais dispensável, portanto) como argumento último:

– Fora, ladrão!

O rapaz fugiu o mais rápido que pôde na direcção do Forte, com medo que algum polícia transviado ainda desse pelo sucedido: levava a bicicleta a seu lado por impossibilidade manifesta em pedalá-la. O capelista da Boca do Inferno veio mais tarde a saber que Dizzie não deixou um tostão com o qual pudesse indemnizar-se o rapazito pelos estragos: o artista fez questão de gastar até ao último cêntimo do pé-de-meia em álcool, antes de morrer-se matado. Todos os dias de manhã o amigo vem apear-se da motoreta Trendline, abre a porta do casinholo com vagar, pega na trompete reverente:

– C’um caneco, Faneco…

Põe-a a luzir com uma espécie de algodão em rama pardacento que retira com todo o cuidado duma latinha áurea, toca o Ré, coloca cá fora o instrumento ao alto junto à parede branca, pega num postal de Cascais e noutro de Nova Iorque e expõe-os de forma meticulosa sobre as teclas da trompete, direitos ao milímetro com o preço de um euro indicado por cima, desenhado a marcador de feltro preto no reverso da folhita amarelecida dum bloco às riscas. Há quem venha de Tóquio à Boca do Inferno para rezar mesmo é à boca da trompete, quem queira um postal junto ao capelista ou rogue por parte do músico finado toda a intervenção divina possível.

[1]  Calma que esse nome está assim de propósito…

 

IBÊJE-ÌBEJI

 

No dia em que os gémeos nasceram, o deus dos azares soprou cedo a chama do sol por trás da mata desenhando um cerco à obscura e recôndita cidade de Santa Clara Bóia. Rodivaldo e Rodimiro Argento, filhos de Rodrigo Almiro e Valquíria Argento, são dois gémeos cearenses de ascendência japonesa por parte da mãe e avô paterno judeu: «Foi», dita um; «Pois sim», confirma logo o outro, e as suas cabeças lembrando na forma alcachofras gigantes acenam afirmativas, seguras, adiante e atrás alternadamente, como se crineiras inquietas num par de cavalos incomodados pelos arreios. Compreendam: impossível descrever um sem o outro, porque um é na sombra do outro, e para cúmulo outro ilumina a existência dum, como tecidos adjacentes crescendo no interior do mesmo organismo.

«Não foi, manu?» – perguntava o mano um; «Foi sim, chápá trêiss» – respondia o mano dois; «Issu’qui é bom…» – regozijava o mano primeiro – e assim se entenderam eles infância fora, mesmo que despertando as suas manhas certa indignação entre os garotos da equipa adversária. Raramente chegava a perceber-se de que assuntos falavam na verdade entre si e suscitavam essas conversas, com demasiada frequência, uma certa inveja ou um rancor difuso em quem as escutava, pelo facto de os dois irmãos partilharem todo um mundo de afinidades inacessíveis e ocultas socorrendo-se somente de monossílabos: «Sim»; «Issu»; «Pôiss»; «Cérrtu»; «Ôkay», «É bein…», e acenavam veementes com as grandes cabeças vegetais, confirmando-se um ao outro em cada gesto ou sílaba, e crescia irresistível essa corroboração como água na boca quando um se encontrava na presença do outro – ou seja, quase sempre – tal qual um acto reflexo. Morenos olhos diagonais, seus rostos acenando de perfil lembravam uma serpente bicéfala pronta a engolir sem vacilar qualquer animal rasteiro; apesar de fisicamente idênticos, Rodivaldo brilhava na cara uma espantosa parecença com a mãe, ao passo que Rodimiro tinha, sem tirar nem pôr pêlo, o rosto hirsuto do pai. Antes de saírem de casa enfarpelados a preceito para o baile dos bombeiros ou a missa na catedral de Santa Clara Bóia, questionava Rodivaldo o seu mano, ou vice-versa, ansiando aprovações:

– Qui taul isstô?

– ‘Cê ‘tá com cara dji mim. – respondia o irmão.

– I qu’é qui cê ácha? – impacientava-se o primeiro.

– Básstantji bêin! – sorria Rodimiro com uma chispa de vaidade riscando-lhe as íris de fresco, ele que sempre se achava apanhado na surpresa de ver-se ao espelho sem espelho, um nitrato de prata humano acenando no outro lado da moldura.

Em crianças, seu entretém predilecto era o «jogo dos reflexos cruzados»:

– Quando eu lêvantá meu braço djireitu, ‘cê lêvanta seu braçu issquêrdu, entendjiduu? – ordenava Rodimiro.

O irmão obedecia alegremente imitando-o em espelho, e durante tardes inteiras mimetizavam-se um ao outro até à exaustão, perdendo por mútuo acordo aquele que se revelasse mais incauto ou distraído nas bexigas:

– Páusa: prêcisu irr nu bânhêru!

– Cumé qui eu vô imitá: com á djireita ou com á izquêrrda? – inquiria o mimo mano.

– Ô ôtáriu, num intéréssa: ácábou u jôgu, né? Ôxentji, mininu!

– Eintão… ‘cê pééérrdjiii! – concluía triunfante o outro irmão.

Ao todo, Rodivaldo perdeu três vezes mais partidas do que o gémeo, talvez porque a impaciência fosse um dos seus traços distintivos, enquanto no mano o orgulho reinava sobre todas as coisas e em quaisquer circunstâncias, ditador absoluto do seu modo de ser. Possuía Rodivaldo o dom de ver e pesar todas as perspectivas na justa relatividade de cada uma, o que desembocava numa hesitação crónica colando-se-lhe ao corpo e a cada um dos membros sem finalidade definida, aparente ou intentada: tal como apenas se permitiam um alongamento das sentenças quando a sós um com o outro (acaso escondessem uma fraqueza qualquer…), somente nestes gestos esporádicos diferia o comportamento de Rodivaldo adulto do seu irmão já maduro, cuja postura era sólida e firme como uma coluna antiga erigida em mármore maciço, de maneira que ao abanar a cabeça em aprovação ao irmão todo o corpo de Rodimiro parecia uma estrutura anti-sísmica resistindo intacta, por qualquer milagre da natureza, a um violento abalo de ternura. Ao contrário do mano, Rodimiro – que nos seus anos de juventude efectuara um único e sigiloso trabalho em favor dos Serviços Secretos –, era um sujeito incrivelmente chorão: dependendo do dia e da susceptibilidade do momento, as lágrimas poderiam gotejar dos beirais daquele edifício abaixo quer lhe dissessem «Bom dia» ou «Boa tarde», «Está tudo bem» ou «’Cê é um crápula, né cára?». Rodimiro e Rodivaldo estão agora em Portugal com uma missão: essa missão é também ela sigilosa.

Passeando-se no metro e escolhendo à toa, sem hora marcada, o destino das viagens pelo ponteiro certo dos segredos trocados ou dos acasos, os gémeos cearenses de feições orientais travam conhecimento com um senhor na aparência respeitável, com uma pomposa barba branca metalizando-lhe o rosto e à primeira vista um pouco inibido, etiqueta “Paul & Shark” (ou “Paulo e o Tubarão”, em tradução grosseira) à deriva no impermeável fosco. Mas o homem revelou-se profícuo nas falas e quase voraz nas epístolas: discursava abundantemente, como o caudal dum rio desgovernado, e apesar desse ruído poluidor ambos os gémeos pensaram em uníssono: «essi homem daí tem um segredo qualquer no seu passado, e tanto se esforça por reprimi-lo que quase o revela com tanta palavrura, isso independentemente da aliança conjugal e do aspecto tão composto», e logo em seguida disseram-se a si mesmos sem jamais o pronunciarem em voz alta: «Mas não se preocupe, meu irmão, que comigo esse segredo está bem guardado, passando à condição de tripla dobradinha – segredo não só do homem, como de nós ambos também…».

Eram de facto, os gémeos Argento, os melhores pastores de confidências do mundo: Rodimiro trazendo ao pescoço um rosário de missanga amarela e Padre Nossos esmeralda sem cruz, com a sua careca pequeninha e solidez de baleia assoprando ao alto um esguicho lacrimoso na serrilha dum mar recortado em lenços de papel, Rodivaldo com seus tiques múltiplos de levar a mão ao nariz, ao queixo, ao ouvido ou à boca conforme a impaciência lhe apetecesse, ou de tocar um batuque estrangeiro improvisado sobre a rótula do seu joelho flamingo. Este irmão, se é calvo não se lhe vê a tonsura, pois ostenta na cabeça um barrete de Pai Natal campino em veludo azul cobalto adornado a estrelas prateadas e com uma fiada de luzes escarlate catrapiscando no rebordo à vez, cingindo-lhe a testa como uma tiara – parece divertido com o reflexo da sua própria figura no vidro da carruagem, visto que o mano, ruminando a chiclete, não se lhe juntou na paródia. Mascaram-se os dois com uma aparência de turistas desgovernados e assim, à medida do seu passo leve, escolhem à toa uma estação para experimentar o ar na superfície, quais toupeiras do feno emergindo na calçada da cidade: quando saem à rua o orvalho de luzes tardio abre a boca dum anjo pasmado na fachada da igreja em frente, então Rodimiro deixa cair dos seus beirais uma grossa lágrima ao chão:

– U qui fôi, manu? – pergunta Rodivaldo aflito, na ignorância primeira do que sentia o seu gémeo.

– Num sei não, mi bátêu uma cérrta nôstálgia. É qui… nunca máiss ninguêm iscrêvêu cômu Tólstói… – suspirou Rodimiro profundamente, à medida que uma outra lágrima lhe floria na pálpebra cimeira.

– Ué, má purrquê issu ágóra, manu? – insistiu Rodivaldinho admirado.

– Purrqui à gentji ‘tamu en guérra i eu quêria er’á páizz. – concluiu Rodimiro em tom definitivo.

O enigma do pensamento filosófico um tanto ou quanto catastrofista formava o terreno favorito deste irmão, bastante mais pragmático, porém, do que o seu gémeo Rodivaldo. Uma missão sigilosa era então a razão da vinda de ambos: tinham um contacto em Portugal escrito num papel, deixado pela mãe pouco antes de falecer – contacto que não sabiam se vivo ou morto – e não tinham mais nada. Vieram à revelia do pai, havia muito tempo separado de dona Val, e que não podia sequer ouvi-los falar nela, quanto mais sabê-los satisfazendo os seus desejos de defunta. Rodimiro transportava o rosário, Rodivaldo amachucava, nervoso, o papel que a mãe deixara escrito no fundo do bolso das calças, e que rezava assim:

 

“Dei aos gémeos o contacto de X para que pudessem conhecer a avó, tal como eu havia prometido no caso de vir a morrer primeiro. Carrega o mais velho este papel, enquanto o seu igual mais novo possuirá um rosário de missanga amarela abraçado ao pescoço, com Padre Nossos verdes e sem cruz.

Assinado: sua Valquíria”

 

A avó materna de Rodimiro e Rodivaldo fora uma mulata enxuta a quem um japonês de São Paulo perdido na Caatinga fizera uma filha, fugindo logo depois – devia ser já uma anciã, nenhum dos gémeos acreditava que pudesse estar ainda viva; apesar disso, os remos da curiosidade e o respeito que o luto impunha moveram-nos para este lado do Atlântico, quanto mais não fosse ansiosos por conhecer o contacto.

Marguerite Attiékê, proprietária da pensão Timbuktu, nascida no Mali directamente da barriga da mãe para as águas plácidas do Níger, não tinha idade nem sexo, mas uma voz de abismo. Movimentava-se como se um cordão umbilical invisível a unisse ainda à superfície espelhada do rio natal e o ar fosse um meio líquido no qual o seu corpo, qual barco de pesca sem tempo, flutuasse à deriva. Foram encontrá-la no Martim Moniz, sentada no átrio da loja dos seus vizinhos chineses, a jantar animadamente e tomando o seu lugar numa roda de caixas em papelão que simulavam pufes inchados. Cumprimentou-os com uma comoção para eles ainda incompreensível, retirando-se logo depois, de novo para junto dos comensais – enquanto se afastava assim de costas, o olhar de Rodimiro prendeu-se-lhe ao penteado, um totó na nuca com trancinhas espetadas em leque como a cauda dum pavão que o enterneceu, e à túnica azul acetinada caindo-lhe tão bem no corpo largo; Rodimiro, por seu turno, pôs as mãos nos bolsos e ensaiou uma modinha para disfarçar a timidez (“Éssá bêlêzá/ dá tantá trizztêzá/ qui máizz váliá não sêrr…”), ao mesmo tempo que observava com olho de falcão o grupo reunido para jantar: era uma família constituída por pai, mãe, filho adolescente e outra filha ainda bebé, além dum venerável idoso ao lado esquerdo do qual Marguerite se sentara. No centro da roda, ali mesmo no chão, tinham colocado um fogareiro e sobre ele uma grande caçarola vermelha onde ferviam camarões com cogumelos enrodilhados em massa Mì Chay. Todos os gestos de Marguerite eram graciosos e precisos, mesmo quando sorvia a sopa de soja preta ou sorria dos gracejos que o velho certamente lhe dizia numa língua absolutamente incompreensível para eles. Rodimiro olhou o irmão: estava deliciado com os timbres agudos do cantonês, como que pincelados com toda a leveza no ar e só interrompidos pelo choro intermitente da bebé rabugenta, pelo que repetia baixinho só para si todas as palavras que conseguia ouvir daquele canto. Encontravam-se os dois colocados de pé, cerimoniosos e discretos como cabides, um pouco longe do grupo, e aí fizeram questão de permanecer até a refeição estar terminada: as pessoas ali reunidas comeram rapidamente, trocando impressões acaloradas ao mesmo tempo que sorviam chá de gengibre dumas tacinhas redondas ou uma bebida de tamarindo servida em copos pequeníssimos. Passaram das massas aos doces de sésamo e amendoim e ao rambutan com ananás, enquanto o adolescente atacava uma gelatina multicolorida. Terminado o jantar, a família dispersou-se – o velho foi o primeiro a recolher-se – e Marguerite chamou os gémeos para junto de si com acenos vigorosos: «Um de cada lado, meus meninos, façam favor…». Teve ainda tempo de esticar o queixo na direcção do idoso que se arrastava para fora dali: «Os velhos chineses ficam nos bastidores, retiram-se para os armazéns para morrer sozinhos porque acham que a morte é uma questão privada. Só eles e a maldita, numa luta recatada: jogam às cartas durante todo o dia, saem unicamente para comer…», depois gargalhou: «Já eu, sou cobarde sem remédio: viro-lhe as costas sempre que posso!» e inspirou profundamente a seguir, trocando a expressão límpida por um olhar amargurado e sério: «…Só nunca pensei que a vossa mãe fosse primeiro».

Abrigaram-se os três um pouquinho neste silêncio último. Aquela clareira aberta e nua contrastava com a parafernália de objectos ao redor, nas prateleiras. Rodimiro lembrou-se de lhe elogiar a beleza quase intacta, ela riu-se brincalhona: «É, estás a chamar-me uatchika munakazi…».

– Mas que língua é essa agora? – quis saber Rodivaldinho.

– É Kimbundu – esclareceu ela –: aprendi no Brasil com uma amiga angolana. Às vezes uso-a porque me parece mais natural e verdadeira do que o próprio português ou a afectada pronúncia francófona. Tem as raízes no coração, podia ser a língua universal. – e mudando de assunto, inquiriu pensativa: – Com que então, és tu o mais velho? Vamos – disse, levantando-se com frescura –, ainda tenho de passar pela pensão antes de recolher a casa, e só uma vez aí chegados vos direi aquilo que precisam saber.

Quando saíram à rua, viram a fonte estrelada da praça reproduzindo nas suas águas as estrelas-guia penduradas sobre as ruas e a noite límpida do céu, grávida em mil astros todos gémeos.

– Sinto-me nascer outra vez. – declarou Marguerite Attiékê, num tom tão misterioso quanto belo.

Pelo caminho, repararam que a mulher tinha um adorno de prata ao pescoço com um polígono branco na ponta – ela explicou-lhes que aquele triângulo aguçado era um dente de tubarão, e que todos os bichos do mar exerciam um fascínio especial sobre a sua pessoa. Assim que entraram na pensão, a recepcionista precipitou-se em queixas:

– Ai, dona Marguerite, eu não sou nenhum almeida, para andar agora a varrer o lixo dos clientes!

– Por que não jantaste connosco, Maria Rosa? – perguntou a patroa com o seu ar mais pachorrento.

– A senhora já sabe que o glutamato incha-me o estômago… Eu em Viseu até comia. – desculpou-se ela acidamente.

Fazendo a sua renda, a recepcionista tinha como companhia sobre o balcão polido um porco de pé, esculpido em cerâmica e com óculos, para o qual não se vislumbrava finalidade alguma, senão que se adivinhava produto dum gosto decorativo duvidoso. Ela sentada com as suas agulhas e o porco erguido vestindo um fraque, ambos de óculos na ponta do nariz, dir-se-iam parentes. Beirã sem nenhuma dúvida, de porte atarracado e bochechas carnudas como cerejas, Marguerite calculou depressa as contas que tinha a ajustar com ela, empurrando logo em seguida ambos os gémeos pelos rins para o buraco frio da noite.

Morava longe, num bairro sossegado e acolhedor derramando-se dengoso pelas vértebras da encosta. Quando rodou a dupla fechadura da porta, vislumbrou-se no salão da casa uma grande salamandra soprando calor e espectros de luz pelo compartimento, iluminando gravuras de peixes diversos aguareladas nas paredes, um quadro a lápis de óleo com uma ilha negra e vinhedos claros trepando os montes sobre um mar tranquilo, e uma kora envernizada emudecida sobre um canapé. Na mesa nevada, desenhada em blocos de mármore angulosos, havia um prato com anchovas, além da luz violácea dos olhos-de-boi formando um ramo seco e compacto com penugem no caule, as suas corolas espreitando o mundo pelo rebordo duma jarra açafrão. Sentou-se a mulher num grande maple rosado oferecendo-lhes o sofá à ilharga, e nesse momento encostou ao braço do cadeirão uma bengala em teca maciça com duas pálpebras e uma íris de marfim incrustado, que usava para amparar a dança das ancas ao ritmo do pé mergulhado em gesso. Assim que se sentaram, os dois gémeos surpreenderam um pequeno animal fixando-os pelo canto do seu olho rubi ao fundo da sala, no meio da densa penumbra: tinha Marguerite Attiékê um coelho albino de estimação no interior duma gaiola com hastes em verga cor de mel, pousada rente ao soalho sobre um tapete escurecido em tons de musgo. Pensaram que o animal por pouco não tremia pelo nariz todos os calafrios do corpo, ou então sucedia que farejava com desconfiança nas visitas algum odor diverso das cenouras costumeiras.

– Não se preocupem com ele – aconselhou Marguerite –, é inofensivo e já vê muito mal. Vamos antes ao que nos trouxe aqui: eu sou o vosso contacto. Ora, o mistério do contacto tem de ser resolvido… com tacto. – constatou ela sem conseguir ocultar alguma impaciência e espargindo mais um suspiro quente pela atmosfera cerrada daquele lugar – Enfim, esse colar pu-lo eu na vossa mãe quando era bem pequenina.

– Cômu ássim? – intrigou-se Rodivaldo – Máis não foi ámiga tárrdjia dá mámãe: cunhêcida, vizinhá, áfáisstada, sei lá? Neim conhéci nóssá‘vó?

– Não, meu querido, percebeste mal: eu sou o elo e o fim da linha. Fiz esse colar com estes dedos velhos que aqui vês para sorte da minha filha Valquíria: o amarelo é a cor de Oxum, ventre e concepção, beleza, amor e fertilidade (creio que por isso terão nascido gémeos…), o verde-claro simboliza Ossain, deus das plantas medicinais e dos remédios (este, verdade seja dita, não lhe valeu de muito no cancro). Já aquele ali – e virou-se a custo, apontando uma moldura oval, minúscula na estante, com um retrato de homem amarelecido dentro – é o vosso avô japonês, que tocava no violão as maiores maravilhas audíveis. Fez-me uma serenata a que não resisti: aqui estão vocês dois, portanto…

Rodimiro abriu a boca um bom bocado, pasmado hipopótamo da vida, contudo os seus olhos eram desta feita raiados como sulcos argilosos num rio seco:

– Máiss não páreci tão vélha…! Não, neim purr sombráiss!! Veiu imbórá du Bráziu purrquê?

– A família do teu pai nunca gostou de nós: não ia atrapalhar o casamento duma filha… – encolheu ela os ombros, vagamente resignada, acendendo um cigarro na pontinha das unhas lilás.

– Num foi prêcisu: eli si átrápálhôu á si própriu! – ironizou Rodivaldo.

Então os gémeos sentiram-se fundir num ser completo, como Ibêje-Ìbeji, ao calor maternal daquela mulher – o coelho cego no canto da casa parou de farejar perante o fenómeno, largou uma cenoura enfadado e piscou seu olho carmesim.

 

 

A DÉCIMA-TERCEIRA HISTÓRIA

 

Se alguma coisa não se pode fazer nesta vida é pedir a um homem muito livre para que seja menos livre. E exigir-lho é crime. Um homem livre só pode vir a ser tão ou mais livre do que já é: esta é uma lei universal. O homem que ama é duplamente livre e o que tem uma arte é-o a triplicar, porque ama a humanidade antes de mais. Não raras vezes essa humanidade o despreza por não se deixar domar. Na manhã em que um remorso nos inaugura o pensamento, toda a amplidão da culpa se compreende: é a culpa de si próprio sem outra razão de ser que não a oposição da maioria, mas é sobretudo a carga da culpa que é de todos os outros e que eles expulsam de si mesmos, arrancando-a à força e negando todos os actos dos quais pudessem vir a arrepender-se – porque arrependimento não existe nestes seres quando assim actuam –, para  aventarem essa mesma culpa sobre o homem livre e assim o subordinarem ao seu suposto poder.

Há histórias inventadas como um embuste, outras inocentes; umas carregam o peso de séculos, aqueloutras projectam-se no futuro, ao passo que aquelas de mais além se perdem no mistério das paixões; umas são amargos de boca, outras doces derretendo com maior ou menor lentidão numa avalanche solene. A décima-terceira história é uma delícia na boca dos outros. Porque aquela avó chinesa está além sentada com um bebé no colo – o bebé todo pedante e sorridente, a avó a segredar-lhe ao ouvido –, brincando com o garoto que traz uma chupeta doce na boca; aquela avó chinesa tem as íris gastas e o cabelo de neve a namorar-lhe os ombros.

Quando se aperceberam eles de que a fogosidade duma paixão juvenil lhes tinha invadido os corpos, arrombado as portas do pensamento vergando à força mil trancas e fechaduras de ferro, inoculado na carne veneno para o qual – é sabido – não há remédio senão o das carícias primaveris e excedidas, os beijos ardentes, os toques sedosos, a festa dos suores em corpos rijos e sãos, urdido mil teias rendadas em torno dum coração demasiado sôfrego para poder recusar tanto enlevo e ternura mais comovida que aquela, quando eles se aperceberam… era já demasiado tarde. Ela tomava banho em pó de cardamomo dissolvido nas águas ferventes e iludido com sais da Toscanha; quando saía da espuma espalhava água de rosas por todo o corpo e embrulhava-se num roupão de cetim indiano da cor do gengibre, acabado de engomar com mil cuidados e um borrifo de talco pela passadeira zelosa; às mãos, calhava envolvê-las num óleo de amêndoas cheiroso ou numa mistura de leite com mel, aquele que fosse puro oiro e do mais fino – porém via ela nesses hábitos novos apenas um deleite resultante da descoberta recente de novos modos de bem-estar. Por sua vez, ele dava longos passeios, ao fim da tarde, pelos jardins e à beira-mar, descalço na areia acobreada com um tecto de gaivotas despontando-lhe acima da cabeça – e então sentia uma paz de espírito incrível e uma liberdade para pensar nela sem fim, e via-a com ternura enquanto a espuma das vagas simulava uma noiva florida que, escorregando no altar, espalhasse dezenas de rosas brancas aos pés dos convidados num bouquet partilhado e feliz e tornava a recordá-la com uma ternura ainda maior – o coiro das gaivotas amplificando o seu grasnido como num cântico de igreja fazendo ricochete nas naves laterais –, embora não tivesse associado nunca, por descuido ou simples recusa, esse estado de espírito a um amor florescente.

Apanhou-os desprevenidos a ânsia de se verem ao pé um do outro, o comprimento da espinha que lhes golpeava a garganta como uma serrilha de segador acaso se desencontrassem, a canícula do sorriso na boca do outro, a alfazema dele no cardamomo dela, as mãos uma na outra, os corações passeando tontos pela pele, a intensidade dos suspiros que traziam chá dentro numa noite de Inverno, e cómodas colchas e almofadas aconchegantes. Além do mais, o colo dela podia bem servir na nuca dele – e isso surpreendeu-os assim que o experimentaram –, como um chapéu à medida ou uma tatuagem extravagante; os seus pescoços enrolar-se-iam ainda em gestos flamingos para beijarem em cada um a derme perfumada que fica por trás dos ouvidos.

«Escuta-me», pensava ele à beira-mar quando o tecto de gaivotas lhe cedia uma clareira de silêncio sobre a qual reflectir e os reflexos do sol na água verde, densa, imitavam vitrais. «Escuta-me: é verdade que esta ânsia, este fervor no sangue, abre as asas dum amor por vir ou já muito antigo, escondido de nós? Que jogos são estes, que cristas de onda, que rosas escarlate derretidas na areia e marés-borboleta pousadas nos jardins me arrastam o sentimento para ti?». Não que as suas palavras encontrassem eco nas falésias, não que ela mesma pudesse esclarecê-lo de imediato e em pessoa porque não ali – simplesmente ele dirigia-se a ela até na sua ausência, e isso começava a perturbá-lo. Rosalina Ling tinha os olhos oblíquos e placidez de marmota, uma cintura muito estreita, um belo rosto oriental e redondo com pele da cor e textura do pêssego; ressoavam os seus passos pela cabeça dele, na calçada húmida ao anoitecer, e o aroma da laranja deixava ela como rasto a quem quisesse espiar-lhe os movimentos.

Ele, como ela, entretiveram-se longo tempo nas piadas fraternas antes de passarem aos actos: sabiam perfeitamente a quantos descuidos exagerados podia conduzi-los a emoção exaltada que lhes fazia estremecer o corpo (um choque eléctrico se se dava tocarem-se), tão-pouco quereriam estragar uma bela amizade, todavia estavam bem ao correntes de que quanto mais reprimissem tal afecto maior e mais estrondoso seria o impacto inevitável. Não se continham nem queriam conter-se. Um dia houve em que Xuji Chang bateu à porta de Rosalina Ling: fê-lo em tom de cerimónia, com três pancadas secas e breves. Estava excitado, nervoso – o que procurava ocultar com uma determinação estudada e pose séria digna dum enterro –, trazia no estômago uma sensação feérica e uma agonia áspera em simultâneo, esta última envolvendo-lhe os membros por inteiro, que lhe desenhavam no ar gestos despropositados e involuntários, como parecia evidente. «Como segui-lo nos seus propósitos, como escutá-lo nas suas intenções?», pensava Rosalina sem o ouvir, quando assomou à porta, acompanhando-lhe fascinada aqueles movimentos esquisitos. «Não me desconcertes mais ainda, anda, ouve-me…», dizia para consigo Xuji no meio da sua escandalosa verborreia. Ela só conseguiu perceber o pedido de Xuji para que o acompanhasse ao café, julgou que pretendendo o rapaz uma das conversas costumeiras onde tinham o hábito de misturar gracejos, boatos acerca de terceiros, confidências sinceras e conselhos oportunos, tudo isso envolto numa nuvem de carinho muito densa e no sabor do chá com leite que lhes acertava a temperatura do corpo, atacada de intempéries na presença um do outro. O riso de Rosalina ecoava por vezes nos espelhos do café, e então ele encolhia-se a um canto, meio tímido meio tonto (era como se aquela gargalhada fulgente lhe ressoasse por dentro, em cada parede dos tubos do organismo, no revestimento dos nervos, nos meandros do seu corpo), correspondendo à alegria espontânea da amiga com um sorriso fechado, diagonal, sedutor. Naquele dia quase correu com ela de mão dada rua fora, puxando-a com força – uma força que espantou Rosalina Ling e, no entanto, a não magoou, antes lhe transmitiu uma confiança segura difícil de justificar ou entender – até à esplanada do café, depois para o recato interior do aroma das bicas e da pastelaria cremosa, dos chás, dos galões num dia frio. «É assim: eu não sei se tu sabes ou se já reparaste, mas aquilo que nós temos andado a fazer parece-se muito com…» começou Xuji Chang num tom um pouco irritado, como se sentisse que ela lhe escondera algo durante todo aquele tempo, algo em relação ao qual só agora ele começava a tomar consciência. Não acabou a frase: ficou a observar Rosalina absolutamente encantado. «Com quê?» quis saber ela, admirada de todo; «Com… com…» gaguejava Chang. «O quê? – insistiu Rosalina – Não me vais dizer que me arrastaste até aqui para não terminares a frase?!». «Bem, é que… Ouve lá, tu gostas de mim??» quis ele saber sem mais quê; «Se gosto de ti? – gargalhou ela – Mas é claro que gosto de ti, senão não te aturava estas cenas! Agora a sério: claro que sim, estive sempre ao teu lado, não estive? O que é que te faz agora duvidar? Realmente, tens cada uma!». «Não é isso! – depois o rapaz murmurou – Se gostas de mim… tu sabes…»; ela olhou-o com uma ternura crescente, enrolando numa das mãos os cabelos antracite: «E tu? …Gostas de mim… tu sabes?», sorriu; «Bem, não é isso… quer dizer… De início não, não foi assim, mas agora que penso nisso… isto é, ocupas-me cada vez mais tempo. Ou seja: sim.»; «Deveras? Bolas, nunca imaginei…»; «Não? – surpreendeu-se ele – E eu que cheguei a pensar que me tinhas armado o anzol!»; «…Que fosse correspondida… Isso é que eu nunca pensei. Sabes, nos últimos tempos dou por mim com certos desejos…».

Xiju Chang e Rosalina Ling casaram a quatro de Agosto, depois das vénias solares ao padroeiro Agostinho. Eram festas que não deixavam dormir a cidade durante três dias: muito altas honrarias se prestavam ao santo fanfarrão, com grandes banquetes um pouco por todo o lado, carroças em desfile puxadas por éguas novas, repletas de ramos de hortênsias, alecrim, orquídeas e pétalas de rosa em todos os matizes e formatos. Guiavam as carroças mulheres vestidas de negro – saia rodada a preceito e blusa em veludo de breu – com fitas carmim a tiracolo, duas por veículo e não mais velhas que os trinta anos (assim rezava a tradição), trazendo no banco da carroça pousado entre ambos os colos um grande saco de linho cru cheio com as carcaças de pão em oferenda ao santo. O desfile dos meninos fazia-se pelo fim da tarde em duas ruelas estreitinhas onde um cheiro a coco pulava pelas janelas dando sabor ao frango guisado que era uso nessa noite, os meninos salivando todos das gengivas em trajes brancos e desenhando duas filas indianas em formação militar, pisando calcanhares alheios à frente e polegares atrás, com sapatinhos de couro apertados nos pés, procurando recitar acertadamente as orações ao padroeiro enquanto mascavam caramelos e arrancavam flores de papel dos peitoris vizinhos. Ao segundo dia matava-se o porco e levavam-se à brasa três javalis, galinholas, perdizes, meia dúzia de tordos, faziam-se com couves viçosas, muito alho e bom azeite as migas do pão, moldavam-se os fritos açucarados para a ceia, espalhava-se canela nas maçãs quentes que fumegavam as salas nos seus tabuleiros; juntavam-se na praça principal um conjunto de baile e dezenas de pares dançantes, elas de saia rodada e lenço encarnado ao pescoço, eles com chapéu preto e um colete acetinado – do branco ao lilás, do preto ao castanho – donde pendiam correntes de oiro. Ao terceiro dia vinham as massas folhadas e o esparguete doce, três botes subiam o rio enfeitados de bandeiras e recebiam no casco um litro de champanhe em paga pelo esforço, depois ficavam cinco ou seis dias a bambolear no cais até as ressacas da festa amainarem. Desfaziam-se as tranças das meninas e aos catraios lavavam-se-lhes os cabelos da brilhantina, e murchavam as rosas de papel e os cravos encarnados em cetim, as trepadeiras em plástico ou de chita listrada.

Foi quando a festa desbotou e santo Agostinho empanturrado, bêbedo como um esfregão, satisfeito da vida, cheio de ofertas benzidas, dormitava já que Xiju Chang e Rosalina Ling se casaram. A cerimónia foi simples, curta e duma elegância discreta, tendo passado quase despercebida: compareceram apenas os parentes mais próximos trazendo cada um, a pedido dos noivos mas não com pouca estranheza, uma alfarrobeira de presente. No final da celebração os convidados abandonaram os vermutes e despediram-se, deixando o casal a sós com os seus estranhos presentes: foi nesse dia que Rosalina e Xuji Chang plantaram as treze alfarrobeiras na grande propriedade, num monte à beira da estrada ocre que sai da vila serpenteando e se avista do café onde tantas confidências trocaram juntos, por longos anos antes e depois de darem o nó. É no espaço desse café, agora convertido em restaurante da filha, que Rosalina Ling gosta de vir sentar-se nas tardes de Inverno – como tantas vezes fez com Xuji, desaparecido há treze anos por causa dum AVC fulminante – muito direita no fato aprumado de lã escura em xadrez, bem junto à vidraça e com um chá espargindo-lhe de vapor o rosto redondo que entretanto ovalou volvendo-se opaco, o neto brincando no seu colo enquanto ela murmura segredos íntimos: um garoto oriental de riso aberto e chupeta doce, mãos coladas na janela fria, a quem contou durante o ano inteiro, de todas as vezes que aí veio, a história das alfarrobeiras que avista ao longe, as treze alfarrobeiras floridas dum amor faz exactamente esse tempo perdido.

 

O BUDA DE LISBOA

 

E foi então que me tocou à campainha extasiado, ofegante, aquele homem estranho com pele cor de cacau e percentagem de gordura semelhando a do cacau, vindo directamente da lojeca onde padecia as agruras de ser boneco com carne espiritual: demanda ingrata para um manequim sagrado aturar ateus algozes de bonecos, fiéis devotos porém de santo pilim. Olhos em bico, dentuça de fora e sorridente como sucede em certas cerâmicas do Zé Povinho, cara larga, achatada de sapo. O leite-creme não lhe passa despercebido, ao Buda desditoso. Tão-pouco francas guloseimas como doce de abóbora. Agradam-lhe os programas da têvê, as meninas italianas da Rai-Uno ao domingo à tarde, chocolate belga em forma de búzio e vinho francês por encomenda. Salta à corda quando ultrapassa os cento e sete quilogramas, dieta peculiar mas rigorosa, eficácia cientificamente comprovada em latim como os bifidus activus, denotando um perfeccionismo cirúrgico e um sentido estético muito característico. Outro dia apareceu aí em casa com duas magnólias em flor no interior duns vasos quadradões e tem especial predilecção por bonsais amendoeira com pontezinhas, pedregulhos, cabanas por perto no interior das quais anciãos magricelas em jejum com barba palha-de-aço grisalha a escorrer-lhes na túnica junto ao peito, segundo se supõe. Buda floricultor. A certa altura da fantástica jornada ele retirou-se do sofá de minha casa para a Azambuja. Disto só sei que viu qualquer coisa à janela: não era um castanheiro, era uma bétula, uma pérgula no terraço sombreando a tarde. A paisagem irreal, como o sol-compota por trás dum nevoeiro de auroras lilases, luz compacta na penugem dos pinheiros. Pouco mais viu. A nossa divindade fartou-se, no entanto, rapidamente da aridez confrangedora dos subúrbios metalizados e da penugem dos pinheiros a espalhar ainda a sua luz grisalha: arranjou emprego a lavar pratos – onde o visitei com maior frequência –, tem também por hábito escrever nalgum sítio misterioso que, esse sim, é-me vedado. Após a aventura de periferia e as angústias do lava-loiças, Senhor Buda ocupou outra vez a minha sala, o déspota, e arrancou logo flausino em direcção ao Oriente. Por lá ficou, pois trabalha agora na Marina da Expo.

Pança inchada na lojeca, umbigo-botão, perna em cruz, sentado no meio de montes nus que simulam o deserto do Arizona ou picos de térmitas erodidos: salta um esguicho de água da fonte mística em forma de esfera rotativa e camaleónica, brota o líquido precioso do sagrado berlinde e corre montanhas carecas do Tibete abaixo (mas sem neve – dir-se-iam achocolatadas numa perícia de pasteleiro) demolhando os pés do gordo santo num caldo fervoroso a exortação. Eis o cenário do sujeito. Vem o miúdo herege mascando pastilha (a hóstia dos petizes), puxa-lhe a tanga, chapinha a água salobre com ambas as palmas abertas no leito enxofroso da lagoa das Furnas, aplica a pastilha de morango num dos vulcões simulando lava intersticial, golpe fatal e derradeiro passadas as advertências da mãe. Sai chapada no puto, a marca do Buda aviltando-lhe a face, recordação amarga dum dia no shopping.

Chega a jovem que orgasma com velas e incensos, bota-lhe três flores flutuantes a arder junto aos pés – duas margaridas de cor âmbar fluorescente e um gerbério vermelho junto a uma campânula em alperce mortiço com brilhantes prateados e escamosos cintilando pulverizados no avesso da chamita interna – e vai-se em risinhos pueris mais as amigas, cada qual tendo orado ao Buda solicitações carnudas e macias de afrodisíacos para apurar em potência másculo-mística o namoro mais logo à noite.

Esfrega-lhe a barriga em botão um bem-humorado catita, daqueles que andam sempre contentes a reboque de toda a gente e se encarregam no emprego dos fretes que os outros desdenham com uma alegria tola e inconsciente por se verem afinal capachos úteis, espécie de super-heróis na luta contra o aborrecimento tirando em cuidados de pinça ao espelho, na casa-de-banho após o almoço, dois agriões da sopa entalados entre os dentes. Tenta o bem-humorado polir a careca ao Buda desditoso, enfia-lhe um brinco na orelha esquerda com uma folha de Uma, Duas, Três (não é folha de plátano), Quatro, Cinco pontas (é folha canabinácea) desenhada em tons pistacho.

Chega a da mala em ferraduras e óculos Guerra das Estrelas, loiríssima até à ponta da raiz dos cabelos da peruca: estica o beiço vermelho à bochecha cheia do Buda (castanha reluzente em função do plástico mas supõe-se que rechonchuda e fofa lá no céu, com o polimento esmerado das virgens e graxa incolor a apurar o brilho se necessário), pretende deixar marcas do crime mas sai-lhe a intenção furada pois olvidara ter posto o novo e ultramoderno baton máscara-carapaça à prova de marcas de crime e com brilho metálico de armadura medieval nessa manhã, especialmente dedicado a delinquentes amorosos vanguardistas. Vem-me à ideia o pedregulho sagrado enorme a atirar para o redondo, em tons doirados de damasco e sílica brilhante (sílica, feldspato, mica…) sob os raios solares do Oriente distante, equilibrado em prodígio na pontinha dum desfiladeiro enorme, acreditando-se nas redondezas que aquilo que o mantém suspenso é um fiozinho do cabelo de Buda entalado sob a bola de pedra como uma cunha a suster o mundo. Por ora, nem sinais de pedregulho perto deste Buda sedentário e mulato: abusador de pizzas e McDonalds ou praticante de Sumo obeso caído em tenra idade num poço de algas japonesas Miso com doze meses de fermentação e uma receita milenar por trás, transmitida de geração em geração ou talvez nada disso, apenas estratégia de venda tão astuciosa quanto eficiente.

Vem o das patilhas com camisa cor de rosa: cabeleireiro, taxista ou motorista da Carris, troca o pendente cannabis por duas perolazinhas rosadas a fingir, uma em cada lóbulo de orelha (estas parecem ameixas nipónicas de exportação secas com sal, Ubeshimo ou coisa que o valha), põe-lhe um colar em flores de plástico ao pescoço e o nosso Buda é havaiano, mistura exótica de raças transfigurando-se com rapidez. Falta-lhe o saiote de palha para dançar o hula-hula lá do sítio, contudo não se sabe se aqueles tornozelos miúdos aguentarão as pernas anafadas direitas e de pé.

(Aparte: há alguém que sai do governo e, disse-me ele mais tarde, tem o desplante de colar na testa do Buda um selo com um avião das linhas aéreas angolanas mais uma trancinha de fingir com conta amarela na ponta, decorada a motivos zulus.)

Apresenta-se um reformado de orelhas de abano em toques sábios de reflexologia nos dedos dos pés do senhor Buda como se apalpasse meloas cheirosas no mercado da Ribeira ou integrasse a comitiva da excursão a uma exposição de esculturas para ceguinhos. Ora bem, aqui o umbigo do Buda remexeu-se e os joelhos juntaram-se-lhe pesadamente a contragosto com vista a salvaguardar que não lhe investigassem igualmente as curvas, textura e densidade das partes baixas aventando em jeito de desculpa favorável qualquer coisa envolvendo a contemplação de Neo-Realismos intrigantes ou cobiçados estilos transculturais. A boca sorridente trancou os dentes a suster uma certa raiva, as bochechas acafezadas resfolegaram-lhe impacientes.

Veio a avioneta sobre a cidade lançar publicidades laranja ao yoga da meditação, de maneira que o Buda chegou a ver na lojeca uns insuspeitos com papéis nas unhas que semelhavam fotografias de si próprio – ele que nunca vaidoso a um espelho por ausência de espelho, uma falta de maleabilidade do pescoço que o obrigava a manter a posição rígida de queixo e cabeça exigida por aquelas torturas dos oftalmologistas que consistem em fazer esguichar um líquido a grande velocidade e de forma inesperada na direcção das nossas pálpebras abertas, e pelo facto de na água a seus pés apenas a duplicação ondulante das luzinhas do tecto a fazer-se sentir rebrilhando. Os papéis esvoaçavam nas unhas dos insuspeitos entre tilintares melodiosos mas irritantes de espanta-espíritos, sandálias em palmeira, cortinas musselinosas e pendentes de vão de porta contra a maleita das moscas mais o esvoaçar elegante das libélulas concebidos em materiais leves, coloridos, transparentes e inovadores como o plástico translúcido.

Eis então que se apresenta aquela dos argumentos definitivos, meias em grossos padrões tipo atelier de puta haute-couture, casaco mais comprido que os restantes trajes a tapar a mini-saia da figurinha. Sai fausta e fresca, o rapaz como um cão de rabito entre as pernas a latir baixinho a seu lado – qualquer um dos lados, tanto faz, da colega platónica e decisória, irrevogável. Já não lhe falta a ele, o rafeirito, qualquer coisa como uma dona indiferente mas cumpridora, quem lhe coloque a capeline a proteger o focinho e o impermeável no lombo a resguardá-lo da chuva, e lhe ponha na mesa a lata da comida e o leve à rua de madrugada para que, aliviado, inunde o passeio de dejectos. Uma dona pseudoindependente, feminista autoproclamada por decreto caseiro, ditadora dos justos em questões de trabalho. A vaidade deve vir-lhe, à aloirada de olhos azuis, cabelo em repuxo para trás com travessão no cocuruto – não tanto a vaidade quanto o nariz empinado, na realidade –, do facto de algum gestor novinho, engravatado, gel no cabelo, ter por hábito criativo (traição desconhecida do rafeiro) ir buscá-la às sextas para o cinema nocturno no seu BM e oferecer-lhe um bouquet de rosas tão rosa (que querido…) e coiso e tal no Dia dos Namorados – D.N., sigla a designar esse dia segundo convencionou o casal –, bouquet que traz atado com um laço rosa bebé igualmente e deitado em mil cautelas sobre os estofos no lado dela. Todos esses pormenores românticos em silicone, sensibilidade postiça a insuflar a vaidade, são desconhecidos do rafeiro na mesma proporção em que lhe ocupam o raciocínio os monges transatlânticos ignotos do Pireu ou as tradições pigmeias fantasma da Nova Guiné. De maneira que a dona da trela, com manto de Vénus, abusa e despreza do cimo do seu altar mariano em pau carunchoso, a virgem santa coralídea. O Buda observa.

Passa o teleférico dezanove por cima da minha cabeça enquanto recordo isto, uma sombra etérea nas ondas turvas. E a gaivota a baloiçar nelas como um patinho no banho, asas coladas ao dorso de penas. Paredões em betão armado com as amarras em ferro entrançadas e estendidas (cordas onde a turvação das ondas praticasse exercício pela tarde) a segurar o cais da Porta do Tejo. Não há quem escreva este casal de mãos dadas ondulando no passeio calcetado, depois no de madeira – o marítimo? É cada mergulho de gaivota fenomenal! O casal de Leste que passa (de Leste ou nórdico?), ele diz Bom dia, pergunta pelo Aquário: “Have a Relaxing Bath, come to the chill out zone”; “Aproveche el Buceo, venga a la zona de chill out”. Italianos, alemães, portuguesa esbaforida na corrida diária. Somos uma cidade-acalmia na ponta da Europa, longe de tudo excepto do mar e dos passarocos aquáticos debaixo do sol. Ninguém é afoito quando se trata de querer saber: tinha de haver alguma coisa para animar a modorra solitária, qualquer coisa como uma excitação brava além-mar. Sorte a nossa o avião, portugueses do século XXI – penso eu. Um helicóptero e um avião, corvos gigantes falcões pardos águias negras, como queiram, sobre a base aérea do Montijo e o castelo ao fundo, casario debruado a vermelho a escorrer pela encosta. Ai o Barreiro, o Barreiro das fumarolas, porto industrial de periferia. O que não é periférico, neste cabo soterrado do velho Continente? Rai’s partam a insularidade da Península Ibérica! E manos espanhóis, vinde: estais perdoados. As senhoras com sacos das compras passeando rente ao Tejo misturadas com os atléticos heróicos. Os estetas câmara-digitalistas a fotografar a partir do passadiço horizontes de pontes abauladas.

                                                                      (silêncio-espaço em branco seguido de

Por que razão não escreves aqui? ‘Inda gostava eu de saber…) As maquinetas do outro lado do Tejo ouvem-se daqui, desabar metálico e rústico: como explicá-lo? O rio é água turva com cheiro a azeitonas. (Deves preferir Cascais não sei porquê…) Bóias triangulares ferrugentas a sinalizar coisas misteriosas para os navios. Afinal não tem mistério nenhum, é uma sinalização aldrabada da passagem mais alta por baixo da ponte. Por falar nisso, duas meninas elegantérrimas passeiam janotas, caracóis oxigenados.

                                                                               (silêncio-espaço em branco seguido de

Por falar nisso, no quê? ‘Inda gostava eu de saber…) Que mergulho estupendo o da gaivota branca de escalpo negro, completamente a pique! Que gozo que elas tiram daquilo, o bico na vertical lá das alturas, sacudir o cheiro a azeitonas das penas à saída da água turva! Pesqueiras! Fenomenais! (Parece que a bóia afinal é vermelha… e larga, rechonchuda, insuflada, um mergulhão a pousar nela.) «- E o teu genro?; – É engenheiro dos lixos – eles andam para lá já sempre a separar essas porcarias –, aquilo tem muita química, muita matemática…”» (conversa mantida por duas senhoras de braço dado). Sentou-se um serial killer atrás de mim a enrolar um papel de rebuçado: está a contemplar o horizonte num banco em cimento listrado. Saco de plástico da Casa dos Leitões certamente repleto de membros humanos decepados e corações por descongelar. Brinca com o isqueiro ao vento da tarde, o infantil. Tira uma língua humana acompanhada de coirato e põe-se a mastigar a sandes olhando atónito a paisagem, planeando o próximo homicídio perfeito. Passa o da bike tenro e enxuto, carreto na mudança vinte e dois, mão no bolso do blusão polar para proteger do vento antárctico. Oceano Antárctico, Marina Clube, Luna. Uma lancha, uma lancha! Bandeirinha portuguesa à proa sobre a cabine azul-tranquilitatis e uma amarração encarnada no convés, comandante à popa. Segue as indicações crípticas das bóias flutuantes, lá passa o túnel mais alto por baixo da travessa da ponte. E o dezanove teleférico de novo a bailar sobre as nossas cabeças. Um privado que levanta voo próximo à Portela vai lesto sobre o leito do rio, paralelo à costa. Fumo ao longe no horizonte, para os lados de Alcochete. Uma garça enorme, cinza esplêndida, pousada mesmo na pontinha da Porta do Tejo, junto a uma sineta e à placa:

                                                  LX-300-AL

                                                 CALECUTE

As patinhas laranja de três dedos das gaivotas como ventosas no tecto a escorrer água do centro comercial. Aquela agora, peito branco-lixívia trampolinando num toldo da Porta do Tejo, grasnando um protesto sem-vergonha. Alhandra é tão feia, meu Deus, tanto ao longe como ao perto – constato. Esta ponte não é assim tão grande coisa. P’ra nós sim, p’ra nós sim! O assassino em série desistiu, depositou no lixo o saco dos leitões com restos de membros humanos e foi-se embora. Segunda lancha, bandeira portuguesa amarelada, tejadilho, dois pesos brancos de lado a baloiçarem no impacto das ondas. Tão lindo este passaroco de perfil: meia-lua preta a crescer na cabeça. (Afinal a bóia parece que é laranja, não dissemos já isso? …Ou estaremos enganados?) Uma fumarada cinza agora mais ao perto, sobre o Montijo. Vai-se embora a segunda lancha, devagarinho a bambolear. Alemães dos Jogos Olímpicos de Inverno no Canadá a fotografarem o teleférico em camisolas de alças com dois graus à sombra – eu de luvas a misturar-me com eles, que combinação estrambólica. “As estrelas se aproximam, se completam (…)/ cada um de nós é um a sós/ e assim você surgiu” – canta Gal Costa. LX-303-AL, Bugix, Titanix, Maria La Gorda, Oceano Pacífico, Oceano Índico, Café del Rio. Café a oitenta cêntimos! Adolescentes surfando em bando no Jardim das Ondas, um Puma camuflado a cruzar os céus sobre o Oceano Árctico. No quiosque Cuba Livre, casais de gays ao poente mais o empregado brasileiro com caracóis doirados, pêra amarela de bode escocês, óculos escuros circulares bem ao jeito dum hippie progressista. Uma canção que se quer certeza: “O acaso vai me proteger/ enquanto eu andar distraído…”; “Devia ter complicado menos, trabalhado menos/ ter visto o sol se pôr/ devia ter morrido de amor, aceitado a vida como ela é” – uma confissão. “Quero una chica de Marte que seya sincera”, diz a cantora enquanto passa ao largo a terceira traineira: rodelas negras como bagos de uva inchados ao longo do casco.Um passarão pardo faz-se à Portela, os morcegos do Bacardi espraiam as asas nas mesas. Tudo isto o Buda viu.

Ele traz um trapo à cinta e alimenta-se exclusivamente de folhas de mangueira faz seis dias quando toca, mais ditoso, à minha campainha com os pés numa lástima – recebo-o de braços abertos, cabeça em vénia recurva respeitosa para com a divindade, embora naturalmente surpreso: não é todos os dias que um boneco decorativo se anima e desata a correr quase nu em meio ao trânsito da cidade, esparvoado como uma doninha esfolada. Interroguei-me ao jantar sobre os gostos gastronómicos do Senhor Buda, preparei um caril que supus agradar-lhe e o caprichoso desdenhou – mandou vir um chinês ao domicílio que mesmo com muito boa vontade não podia tragar-se nem na pontinha mais tenra das líchias. Levei-o nesse fim-de-semana a Sesimbra a ver as traineiras oculto no porta-bagagens do Coupé; acalmou-se um pouco com os ares marítimos, pôde contar-me a sua história desde o início. Partilhámos o quarto embora não a enxerga, foram-me dados a observar em êxtase divino os sagrados vapores de alabastro, autêntico fog londrino, que pareciam emanar-lhe de todos os buracos da cabeça enquanto ressonava um trovão principesco de mãos traçadas sobre o ventre. O Buda sonha e produz nevoeiro, chora tempestades, ri secas sem par, ofusca o sol no cansaço do sono. Mar e algas fazem-lhe companhia: um é suor diário e chatarrão, as outras denunciam sujidade acumulada ao longo de anos sedentários dispensando cuidados de higiene de maior. O tipo é sarcástico, tem um sentido de humor extraordinário devo confessar. Sai-lhe cada uma da boca que parecem duas. Mas então, tem uma história dramática. É careca de nascença: nunca a família deixou que os caracóis loiros lhe adejassem à menina coquete pelos ombros cor de canela. Viram-no no metro a fazer pela vida, depois trepou à cúpula transparente dum centro comercial (por mera excentricidade, confidencia envergonhado…) e a partir daí a polícia passou a persegui-lo. Buda foragido.

Da última vez que o apanharam levaram-no a uma clínica médica de alta tecnologia na Universidade do Winscoatchim a fazer um electroencefalogramómetro topo-de-gama com vista a determinar pontas-onda e ondas-ponta de baixa frequência, grande amplitude, pontiagudas não-corrompidas pelo raciocínio hamburguerizado ocidental derivadas da musculação cerebral produzida pela celebração eucarística do levante, o recolhimento meditativo no Oriente dum modo geral. Ora isto não agradou ao nosso Buda, que é gente simples apesar de sarcástica – enfim, pouco ecuménica nas qualidades. Aperceberam-se ainda os investigadores que os miolos da divindade desditosa eram mais banhados em sangue que o habitual, digitalizaram a coisa para precisar os pontos onde o por assim dizer ketchup fervilhava com maior intensidade e chegaram à conclusão que o nosso Buda era um fenómeno transcendental da natureza. Ele assustou-se só com o palavrão, fugiu pela porta automática do centro tecnológico ainda com os eléctrodos na cabeça e gel tipo baba de caracol a escorrer-lhe da careca para o interior dos ouvidos. Veio cá parar à lusitânia terra outra vez, um amigo arranjou-lhe uma cunha na lojeca. E nesse dia de trabalho particularmente difícil chegou a minha casa exausto, transido depois dum polícia alternativo ter também tentado assediá-lo.

 

 

UM TUAREGUE E DOIS CAVALOS

 

Não havia tempo a perder quando Izidoro passou o monte – corria o mais que podia e as calças descaíam-lhe pela cintura magra, os ombros eram mastros derrubados e os membros queixavam-se como cascos doridos, o suor alagava-lhe em bica o tecido fresco da camisa larga. Não havia tempo a perder, nem um só minuto olhou para trás: «Tornei-me nómada» pensou. E galgou duas moitas dum salto só, cambaleou na erva húmida ao aterrar, desatou numa corrida louca monte abaixo a pensar um pensamento único que era ânsia e desejo e felicidade igualmente, e era esse pensamento só assim: que lá em baixo, no vale, atravessaria com os seus próprios pés a linha imaginária da fronteira, essa linha que tudo derruba, tudo encolhe e desfalece e torna medíocre em Portugal – na banda para o lado da linha que afaga o mar –: «que não é linha coisa nenhuma, pura estupidez que degrada a gente: pois se vejo à minha frente o mesmo verdejante e contínuo vale… linha de políticos para criar reinos onde a maior parte soçobra» pensou Izidoro. E tendo pensado isto propulsionou as duas pernas ainda com maior vigor, esforçou os músculos tanto quanto podia, exigiu ao corpo aquilo de que ele não era capaz com o intuito de alcançar mais rápido a linha ou o vale – «tanto faz» pensou – sem tirar os olhos do horizonte verde e das nuvens claras drapejando no céu de Agosto. Puxava ao máximo todas as fibras de todos os músculos numa corrida fulgurante e atroz, e foi então que uma estranha sensação lhe sacudiu o corpo a partir dos tornozelos: as suas pernas eram como dois cavalos movidos para diante graças a  uma vontade própria, com tendões equinos e cascos aparados calcando a terra com resolução. Auxiliou a corrida dos membros inferiores com movimentos largos de antebraço e cotovelos, um pescoço inclinado para a frente como certas aves de papo grande, e fez isto sem despregar os olhos do vale nem piscá-los por um momento sequer, o vento seco e forte a bater-lhe nas pálpebras que ardiam fortemente. Enquanto se precipitava encosta abaixo esfregando um pulso nas pestanas, os cardos agarravam-se-lhe às calças de linho, fustigavam-lhe a barriga das pernas e os tornozelos nus. Isso não o deteve nem desanimou, antes o incitou a fugir mais rápido daquela erva maldita que lhe comia a carne em bolhas infames.

Quis saber com os seus próprios pés que era só um todo aquele vale – e do outro lado da imaginária divisão, tão bem que se viveria! Para começar, as casas ali não tinham comparação com as de cá (e era todo o mesmo vale, de facto…), isto tanto ao longe como ao perto – pelo que não seria ilusão óptica –, com justa verdade se afirmando que até os cães tinham lá melhor vida do que os humanos desta banda – se a explorados não se sujeitassem eles –: sempre tão invejosos, mesquinhos e impeditivos entre si da iniciativa tanto particular como geral. «Vem-lhes esta maneira de ser de muita frustração acumulada – esta sentença surgiu na cabeça de Izidoro mais enquanto evidência experimentada do que como pensamento articulado –, uma revolução que se cumpriu e agora se descumpre sem qualquer tipo de pudor nem vergonha nem remorso, gerações atrás de gerações com as pernas cortadas e os sonhos desfeitos dá nisto: um povo passivo e sem juízo na mioleira que se deixa governar por qualquer canalha e de novo se vai meter na boca dos lobos, ou melhor, até deixa os lobos saneados regressarem a casa como filhos pródigos, espera eternamente pelo Messias que o salve da burrice centenária. São, meus caros, os benditos frutos do catolicismo, essa maldição eterna que continua a assolar a nossa terra como peste – mas são sobretudo as sementes do desamparo, do desespero e do sacrifício contínuo deste povo que o fazem agarrar-se à fé em busca duma compensação post-mortem e divina para aquilo que não acolhe e o repugna nesta terra». As tripas de Izidoro revoltaram-se, nesta altura, por dentro até à náusea, sentiu um ímpeto para parar e vomitar ali mesmo numa qualquer valeta: mas não conseguiu, pois era o desejo de alcançar o outro lado maior e mais forte do que quantos enjoos houvesse a suportar.

«Que juízos são estes, vendo fé e providência onde é humana e mais que injusta a decisão? Que gente é esta, que acha por bem sacrificar sonho, anseio e ambição, enterrar tudo, calafetá-lo muito bem, espalhar por cima uns numerosos baldes de cimento, aplanar a massa e esquecer o assunto, sem se importar com o facto de perder coração e perder tudo, isto para manter uma unidade que cansa e desgasta os indivíduos, esses moribundos mortos-vivos que uivam à noite nos cemitérios da existência?? E quem diz tapar o assunto, diz tapar o corpo duma mulher espancada ou duma criança violada e queimada até à morte, tapar os homens livres mais as suas opiniões, ou tapar a hipocrisia nacional, que é tudo (e não é bem, claro que não…) a mesma coisa. Usam-se expressões difíceis como “défice democrático” para designar um défice crónico de humanidade e uma impunidade geral associada a tudo isso. – isto alcançou Izidoro de forma límpida, como uma evidência soberba – Razão teriam os japoneses em chamar-lhes “bárbaros do Sul”… e em limpar-lhes o sebo, aí muita razão tiveram. Trata-se, neste caso, de fazer lá a justiça que os portugueses não saberão nunca fazer aqui entre si próprios sobre aqueles crimes hediondos que os levam a matarem-se em vida uns aos outros. Paciência, é lá com eles…», e com esta frase deu por terminada a intuição, já a ideia mantivera-se sempre no fito da estúpida linha imaginária que não deveria com certeza era existir – «E não é que não existe mesmo?!» constatou Izidoro com uma alegria inefável e triunfante: «Os homens deviam nascer era sem mapas na cabeça, ou pelo menos sem mapas a pesarem sobre ela como guilhotinas…». Tendo observado isto  sentiu-se nómada e tuaregue entre os homens da terra donde provinha, fundiram-se as suas vísceras naquele instante com a terra e com o sol que desaparecia, com a noite pejada de astros altivos anunciando para ele um novo dia: «Sou nómada e tenho asas nos pés, não sei se cavalo ou Pégaso o que sou…». Queria esquecer todas as ideias que lhe tinham vindo antes minar o espírito de recordações abjectas e indecorosas; estava cansado, muito cansado de tudo aquilo, e era chegado o momento, bem sabia que não haveria tempo a perder: o seu desejo continha a paz toda e a esperança aventurosa que impele, de asas abertas alturas acima, um falcão pelas escadarias aéreas do zénite. «Como é possível um país viver, em tempos que são, apesar de tudo, de paz, em guerra contra a própria iniciativa? Estranho meio de sabotar tudo, matando os próprios filhos tanto metafórica como literalmente.» – com esta conclusão a respeito de atitudes que não quis perceber (estava exausto, compreendam, e com muito pouca vontade de o fazer – além de duvidar que tal fosse possível, restando nessa hipótese pouco mais do que a condenação ou o desprezo como alternativas), passou dum estado atormentado e exausto à paz dum espírito em branco, esvaziado de todas as preocupações possíveis.

Vinham os seus pés corpóreos como que raspando o chão com grande inclemência e ferocidade, porém ao atravessar a linha imaginária que um marco despojado e solitário assinalava tudo mudou (o vale era à primeira vista igual de ambos os lados, isto pôde garantir Izidoro mais tarde com todo o rigor: «pelo menos em termos naturais, ao menos desde que existe; mas os homens fizeram-no diferente entre si…» afirmou, sem saber se se fizera compreender realmente e com um leve, discreto tristezameteorito cruzando-lhe o olhar entre dois pólos). Quando atravessou a ansiada linha o espírito flutuou-lhe sem pesar e as asas que parecia ter nos pés – com um pouco de atenção poderia sentir-lhes as plumas – ergueram-se acima da relva: foi então que pôde alcançar uma panorâmica geral da situação, tendo descoberto com os seus próprios olhos as diferenças entre um e outro lado (das quais, como se poderá perceber, já vinha antes suspeitando: quer porque simplesmente o intuísse, quer porque lho insinuassem amigos e conhecidos, murmurando de vergonha entredentes os “atrasos” bem patentes do estrangeiro). Leve e solto, vazio por dentro e em paz, como que purificado, observou com maior clareza as disparidades, mesmo ao nível do seu estado de espírito: dissipou-se o pesadume do cansaço que o vinha torturando, como uma gelatina despegou-se ocioso da forma há longo tempo preenchida e, uma vez descolada a modorra, uma alegria fecunda tomou conta dele, cresceu-lhe no corpo até rebentar em nova energia. «Um homem livre é um homem livre» justificou-se, e então sentiu-se à vontade para flutuar um pouco no espaço por sobre aquela terra nova que era, não obstante, a mesma terra (é importante que não o esqueçamos), donde avistava já com certa nostalgia – não há como evitá-la quando se manda à fava uma raiz – ou antes, com uma certa pena, aqueles homens vergados pelo medo e paralisados no veneno da própria inveja que não haviam conhecido outra coisa para além daquele modo de vida triste que os consumia – a si próprios e uns aos outros –, convictos na sua redoma de que aquela forma de não ser tão peculiar os transformaria em país mais cedo ou mais tarde, justamente a eles: uns incompetentes teimosos insistindo em brincar sozinhos às nações rigorosas dos adultos.

Tudo era, pode-se afirmá-lo sem pudor, cinzento e conformado do outro lado, os homens mais magros e pobres, as pessoas mais brancas, o seguidismo a nova ordem. Ninguém tinha opinião própria do outro lado: todos disfarçavam que a possuíam sem nada acrescentar de relevante a qualquer assunto, ou seja, limitavam-se a obedecer fingindo liberdade nessa obediência. Os que denunciassem o caso estariam por certo falando com paredes ou muros altos e sentir-se-iam por isso, mais cedo que tarde, tão frustrados – porque oprimidos – como os conformistas (pois se é dito que até as paredes têm ouvidos, nem estas nem os muros demonstravam possuí-los neste caso…). Era (ou é já?) um país onde só se aceitava a uniformidade e apenas se louvavam os que exaltavam a pátria com fervor, mesmo que unicamente o fizessem com o interesse imediato da sobrevivência, sem quaisquer sentimentos nacionalistas prévios ou anteriores (onde, aliás, não poderia sequer havê-los por faltarem as razões) nem sinceridades maiores que a duma fome sincera. Era um país escurecido pela luz do sol, contrastando na cor com a vivacidade deste – os que tivessem fome e quisessem, não obstante, por teimosia ou dignidade escusadas, continuar a ser sinceros, então que escolhessem o exílio. «Escolham-no – diziam –, afinal a escolha é livre mesmo que não tenham dinheiro para comer: afinal tudo não passa dum grande equívoco vosso porque vivemos num país livre. Sois livres para sair!». Esta frase ecoou na cabeça dele por longo tempo «Sois livres para sair!», o único conteúdo no seu cérebro quente, como um lixo por varrer esquecido ao canto da casa ou um último pesadelo na noite atormentada, a seguir desvaneceu-se e deu lugar a uma outra sentença, que ele considerava mais correcta, isto é, aquela que deveria ter sido proferida no lugar da anterior: «Sois livre para sê-lo!». Sê-lo, o quê? Escolhera ele «ser tuaregue em vez de exilado», foi isto que lhe veio ao coração nesta sequência em torvelinho – quiçá porque lhe amenizasse em remorsos o espírito desarrependido –, ou acaso o escolheria se tivesse acontecido Aladino condensar-se diante dele com a sua cauda vaporosa a sair pelo biquinho da lâmpada – isto porque um tuaregue não tem país e, por inerência lógica, não tem destas vergonhas sob a forma de resquícios inoportunos, constrangimentos ou embaraços antigos de qualquer espécie ou género. «Nem penas imerecidas, esperemos… Um tuaregue com dois cavalos, um em cada perna»: nem mesmo estes aparelhados de arreios, selas ou estribos, nem mesmo estes domáveis porque indomados e naturais, com crinas longas e soltas assinalando brisas, no lugar de cortadas rente ao pêlo por um tratador impertinente. «Dois cavalos selvagens percorrendo montes e vales em busca do voo secreto». E, tendo tomado consciência disto, Izidoro quis repousar do assunto levando os dois pés ao chão.

 

O ESPELHO ANTROPOMÓRFICO

Agora que o cacto morreu, sento-me na relva frondosa à sombra das árvores robustas, escrevo ensaios como o que se segue:

O Espelho Antropomórfico

A internet como ilusão de possibilidades no domínio da oportunidade real de vida

O carácter virtual dum meio como a internet introduz, muitas vezes, o utilizador num universo aparentemente ilimitado em oportunidades e inesgotável em potencialidades, que se derrama como um leque e alastra sem freio a quase todas as áreas da sua vida. Este ilusório sem-número de oportunidades, à primeira vista ao alcance do utilizador, transformou a internet no meio da democratização por excelência, ao tornar acessíveis a milhões de sujeitos os mesmos conteúdos, numa era em que se ouve dizer que «ter informação é ter poder». Se é verdade que a informação educa, não é menos verdade que certos conteúdos podem alimentar degenerações e perversidades, instruindo-as a sofisticarem-se – como tão bem sabemos dos famosos casos das redes pedófilas internacionais, dos comunicados à imprensa por parte de grupos radicais, das complexas redes de comunicação estabelecidas entre terroristas ou dos atentados à privacidade dos cidadãos e à autonomia de outros estados por parte dos serviços secretos das nações ocidentais hegemónicas. Mesmo que isto não fosse verdade e a world wide web tivesse, por hipótese, sobretudo aspectos positivos, ainda assim, seria necessário que nos questionássemos: de que forma educa a informação fornecida – e será sempre um papel formativo, aquele que a net desempenha? Quanto a esta última questão, parece óbvio que a resposta é negativa – já aquela outra remete-nos para os detentores desse supra-poder que é o poder de seleccionar a informação. A sociedade virtual, porque feita de pessoas reais, continua afinal a ser tão estratificada como a das relações presenciais de todos os dias, embora um mesmo indivíduo possa ocupar uma diferente camada com a transição do vivere para o vere. Isto torna a internet aliciante: antes de mais, porque se trata dum simulador de cadeias sociais que permite ao indivíduo, não só testar um comportamento e as suas consequências imediatas antes de decidir aplicá-lo nas suas relações de todos os dias (talvez por esta razão tenha tão rapidamente adquirido a net tão grande fama entre os adolescentes), como também movimentar-se entre camadas sociais, experimentando a pertença a uma outra e a comunicação com pessoas com as quais nunca comunicaria doutro modo, como se o facto de a maioria dos homens poder falar e/ou escrever – ou seja, comunicar entre si – anulasse as barreiras reais entre eles existentes de facto. Esta ideia torna-se tanto mais absurda, adquirindo o carácter de verdadeira falácia da virtualidade, se o leitor pensar que, por exemplo, por dizer «Bom dia» ao seu patrão não troca, obviamente, de posto laboral com ele, tão-pouco se tornará (como muitas vezes é sugerido nos meios virtuais) íntimo dele do dia para a noite.

Uma outra questão deve ser focada, a qual nos deverá ocupar mais longamente: afinal, quem selecciona, escolhe, parte, mistura e que tipo de informação? Estes são talvez – os grupos que a internet serve e favorece – os senhores dos nossos tempos, senão vejamos: o próprio software utilizado, a língua de navegação à qual recorre a maioria, os principais servidores e as questões de compatibilidade – todas estas escolhas, inscrevendo-se mais no domínio da realidade do que da hipotética potencialidade virtual, conferem as uns (os que escolhem) o poder sobre os outros (os que utilizam os serviços), ao seleccionarem previamente os conteúdos aos quais estes poderão aceder. Mas aceder a conteúdos não é o mesmo que aceder a experiência, daí que haja uma parcela importante de sabedoria à qual simplesmente não se pode aceder através dessa informação que, se é de certo modo seleccionada em termos de conteúdo, é por outro lado desregrada em termos de apresentação, uma autêntica “rede” onde o utilizador tanto se pode perder como enlear em definitivo, perdendo de vista o carácter orientado da pesquisa que empreendia ou saindo desse labirinto informativo ainda mais confuso do que entrara, como que anestesiado para a reflexão pela sobrecarga de conteúdos e o seu (tantas vezes presente) apelo ao choque e ao sentimento. O choque emocional gera apatia (isto é evidente, talvez em maior grau, nos noticiários televisivos…), o excesso informativo uma desorientação vital, a falta de objectivo e propósito definido do pensamento e, não raras vezes, uma diluição do rigor. É por isso que a televisão é o meio do sonambulismo por definição e a internet um limbo para os dias que afasta do real, da acção e da reflexão imediatas. Reproduz o real sem criá-lo, ou no máximo recriando-o sob a forma frustrante de um reflexo (das teias, cadeias e problemas locais), um micro-mundo tão inacessível quanto ilusório nas suas possibilidades de acesso e oportunidades de vida susceptíveis de serem através dele criadas.”

 

 

POSIÇÃO YOGUÍSTICA

 

Penso às vezes como seria se o cacto não tivesse crescido. Está certo que, no início, era uma planta ornamental e rústica, impondo até certo respeito, mesmo quando o seu tamanho não ultrapassava ainda os dois palmos, com olhos espiralados e rosáceas de espinhos, flores fugidias de primavera ociosa em tons açafrão raiados a branco, um tufo denso de raízes finas e emaranhadas, bem moldado pelo vaso que as continha. Não amarelecia de inverno e resplandecia no estio, com os seus grandes lábios abertos, carnudos e vegetais, a respirarem a noite húmida: podia ouvir à noite na varanda, quem se embalasse na rede ou sentasse num cadeirão, o ruído lento de válvula hidráulica produzido pelos pulmões do cacto, que se dispunha a crescer até ocupar um vaso e mais outro, consecutivamente maiores, e finalmente toda a varanda, estendendo ambos os braços para os lados até incharem no alpendre como um balão de hélio gigantesco. Finalmente, houve que pôr a planta ao ar livre, para não derrubar os pilares da grande varanda com o seu músculo tenso de clorofila. Cresceu dias e noites seguidas, sob o luar, ao vento, debaixo de aguaceiros ou neve, e atingiu em tamanho tais proporções que, não fosse em termos de espécie distinguir-se completamente, muitos a julgariam próxima do feijoeiro mágico que erguia uma escada colossal entre terra e céu. Os picos do cacto tinham a grossura de chaminés fabris, transudava ele na noite um orvalho puro que chegaria para regar o restante jardim (ou o que restava do restante jardim, por assim dizer…) e suspirava aquela planta o trovão de duzentos camiões quando o sol se punha para lá dos montes, nostálgica daquilo que ninguém aqui conhecera – pois é verdade que o cacto parecia uma encarnação doutro mundo distante, onde os vegetais reinavam adquirindo proporções apocalípticas e onde todas as regras do ar e do chão, do tempo e do espaço e dos tamanhos, lhes estavam submetidas. Existiriam nesse mundo ranúnculos gigantes, nabos como abóboras e abóboras com o diâmetro de piscinas, rosas alcançando em tamanho as cidades médias, com odores tão intensos que não se poderiam cheirar a menos de cinco quilómetros de distância, sob pena de asfixiarem quem o ousasse, tal como o enxofre sufoca aqueles que se atrevem na cratera dum vulcão. Que mundo fantástico esse seria, cheio de estranhas surpresas! Os canteiros teriam o tamanho de países, embora países não houvesse com certeza nesse mundo, pois as fronteiras limitariam o crescimento das plantas. Impraticável e caótica – semelhante regra nesse mundo… Os fertilizantes seriam proibidos como as armas ou os venenos no nosso, as podas consideradas um atentado contra a vida e severamente punidas, os enxertos abordados sob a perspectiva duma possibilidade delicada, levantando sérias questões éticas. Enfim, um mundo bem longe das nossas medidas e condições, desconcertante e cheio de intriga a seu modo, perigoso (não direi que não…) mas fascinante e educativo para qualquer humano que por lá se atrevesse.

Não vou aventurar-me em mais conjecturas sobre a proveniência fantástica do grande cacto, bastará dizer que era uma planta, como se compreende, bastante original e distinta das outras, cuja seiva concentrada a fazia crescer desmesuradamente a caminho das nuvens baixas, circulando distraídas sob a abóbada celeste. Seiva concentrada, sim: era necessário um sabre para lhe arrebentar a pele e quando semelhante caso sucedesse (sucedeu semelhante caso por duas vezes) não gemeria a planta nem definharia, antes soltaria com admirável languidez uma gelatina parecida com a dos ramos do pessegueiro, espessa e ambarina, no lugar da ferida, e deixaria correr esse sangue para o chão durante muito tempo, até a geleia se solidificar em crosta e se soltar, revelando por baixo um tecido novo. Geleia, de facto: alimentava passarocos e bichos vários enquanto não amolecia, caracóis, lagartos, texugos, estorninhos. Tinha também propriedades curativas nas feridas próprias das pessoas, promovendo uma cicatrização mais rápida e sem deixar marcas dérmicas. Das duas vezes em que sucedeu esfolar-se a pele ao cacto, recolhi alguma seiva para fabricar velas, o que na realidade resultou – ardia nessas velas uma fragrância fresca e terrestre, lembrando um campo de feno ou um prado recém-cortado ou terra de estio inundada pelas águas na derradeira rega de Maio, e alumiavam a noite inteira os pavios dessas velas, pois a resina do cacto nem tão depressa derretia quanto a cera nos círios mais comum. Tinha, por conseguinte, muitas e boas propriedades a dita seiva, servindo igualmente como requintado tempero nas ementas mais diversas e conferindo aos alimentos a textura tenra com a qual se devem honrar as visitas que são bem-vindas, isto além dum aroma, em boa verdade, divinal.

A planta pródiga em transcendência cresceu de modo a ocupar grande espaço, primeiro o equivalente a um depósito de cerveja, depois o mesmo que um pavilhão e, por fim, o correspondente a um estádio de futebol ou a uma grande sala de espectáculos, abarcando em largura já uns bons quinhentos metros por alturas do seu primeiro ano de vida. Abri enfim uma bilheteira no portão do quintal e comecei a cobrar entrada aos turistas para poderem acercar-se do fenómeno, como se o meu jardim fosse um museu botânico do qual constasse um espécime único, espantoso e gigantesco, ou um novo parque dos jurássicos vegetais. Não foi difícil angariar visitantes nem rentabilizar o espaço tão-pouco; tornou-se o meu quintal o mais concorrido das redondezas, aliás tive a certa altura que comprar o espaço do quintal vizinho para poder a planta estender-se conforme entendesse sem causar-me constrangimentos ou vergonhas maiores, isto apesar do meu quintal ser em comprimento ainda considerável e a minha disposição para mondá-lo sempre pronta, de modo a deixar espaço ao tropismo insaciável daquele querido espinhento. Arranquei três arbustos e duas árvores de fruto (uma ameixoeira, um pessegueiro de pêssegos carecas) com o objectivo de dar passagem ao cacto gigante, aparei primeiro a relva em seu redor e mais tarde arranquei-a com diligência feroz ao verificar que poderia afectar-lhe o crescimento, abri a cerca separando o meu quintal do quintal vizinho depois de comprar o terreno sobranceiro com uma boa proposta, envolvendo charme e dinheiro à vista. Planta privilegiada aquela, sem dúvida.

Se algumas certezas haviam, estavam essas certezas relacionadas com o facto de o cacto apresentar algumas características peculiares: sombreava a planta, por exemplo, para a esquerda nos dias pares e para a direita nos dias ímpares e isso, embora acontecendo desde o primeiro momento em que ali se encontrara, tornara-se com o passar do tempo francamente notório. Esta evidência causou a princípio estranheza, pois era sem dúvida irregular que assim acontecesse independentemente do lado donde o sol estivesse a bater, trocando as voltas ao astro com certa graça teimosa. No verão, já se sabia – tendo atingido o cacto proporções maiores –, que havia que mudar de posição as cadeiras, não com o decorrer do dia, mas conforme os dias, alternando o repouso num lado e noutro (o que se tornava, com franqueza, bastante mais prático). Uma outra particularidade do cacto era gemer quando a lua estava cheia – começou isto tinha ele ultrapassado em diâmetro os quatro metros, quiçá porque só então se tornaram os lamentos mais audíveis. Esta característica, tendo provocado tanta estranheza quanto a anterior, não causava divertimento como ela, mas uma apreensão até compreensível. Não se sabia se os gemidos eram dor de alma até se perceber que eram dor de crescimento, o que aliviou um pouco toda a gente – estava o tropismo intensificado por alturas da lua gorda e era isso bem verificável a olho nu, tendo em conta o crescimento vegetal desenfreado que acontecia nos dias rondando o fenómeno natural. «É como um adolescente desastrado» pensei por várias vezes, e todos os meus esforços foram no sentido de procurar alguma palavra humana dispersa e perceptível nos gemidos, o que, no entanto, não pude encontrar. Nem procurei com mais afinco quando se tornou patente a razão de tanta lamúria. Disse-lhe «Boa noite, cacto» e fiz-lhe uma festa meiga na pele escorregadia cor de mentol, procurando embalar-lhe a pena ou torná-la, por meio de afectos, mais leve.

Esse pesado choro findou, porém, quando atingiu a planta as suas dimensões maturas ou finais, o que em termos de perímetro correspondia exactamente àquele que poderia ser medido em torno dum estádio de grande envergadura (por esta altura não bastavam já o meu quintal e o quintal vizinho para albergar o grande exemplar, senão que era necessária toda a periferia da cidade – felizmente não me endividei graças a esse crescimento exagerado porque, com o passar do tempo, surgiu um movimento de cidadania “pró-cacto”, apoiaram-me ambientalistas solidários, chegaram fundos camarários e governamentais). A planta tinha agora uma forma redonda abaulada, medindo em altura o equivalente a duas torres catedrais. Juntaram-se especialistas de vários pontos do globo para analisar o fenómeno e duas centenas de voluntários com o objectivo de erguer uma cerca protectora. Fizeram-se debates e mesas-redondas sobre a originalidade do espécime, sessões de esclarecimento à população com o objectivo de sensibilizar para a preservação do cacto e prevenir eventuais actos de vandalismo, os quais, felizmente, não vieram a ocorrer. O único incidente registado ocorreu certo fim de tarde ameno, quando foi detectado um indivíduo anónimo a urinar junto à planta, contudo a polícia tomou de imediato conta da ocorrência: algemaram o indivíduo e levaram-no a passar uma noite na esquadra quentinha por questões de precaução, embora tivessem detectado quase de imediato que o sujeito estava irremediavelmente embriagado, tendo confundido a pele do meu cacto com uma gigantesca e húmida parede verde onde pôde aliviar temporariamente a bexiga.

O cacto congregava portanto, desde sempre, opiniões unânimes e afectos mais ou menos intensos, pois se uns amavam toda a espécie botânica, incluindo por consequência o cacto, outros afeiçoaram-se ao meu picudo em particular, nutrindo por ele uma estima semelhante àquela que os unia a parentes e familiares bem chegados, e outros ainda, menos tenros de peito ou com menor propensão para se comoverem com plantas achavam, ainda assim, que o fenómeno traria turistas ou estimularia o comércio da zona, a indústria, os serviços, a fama agrícola ou as investigações de cariz científico, o que traria de qualquer modo benefícios para a cidade, logo, para aqueles que nela trabalhavam e viviam ou nela simplesmente estavam, por razões que a vida ditou e a vontade quis e o acaso acedeu. Era uma planta de esperanças e consensos, aquela, uma planta viçosa, ainda que carregando no dorso o desenvolvimento de toda uma cidade. Ninguém esperava que recuperasse com solenidade e bravura glórias antigas, mas sim que se constituísse ela mesma como glória actual e catapultasse um sem-número de vitórias futuras.

Até que o dia foi chegado em que a planta esmoreceu. Verdade seja dita, ninguém esperava por um fenómeno segundo depois do primeiro fenómeno, e ainda menos em sentido inverso ao da proeza original, o que ocasionou primeiro profunda apreensão, depois uma tristeza crescente e, por fim, um sentimento de impotência misturado com uma espécie de raiva desiludida. Para quem viu com acertados olhos o sucedido, não há dúvidas que o desastre ou a doença começou a dar sinais de si decorridos dois anos e nove meses sobre a data em que a planta veio, ainda minúscula, para esta casa (colhida numa estufa onde nem antes nem depois se voltariam a encontrar anormalidades ou excepções deste género, nem mesmo entre exemplares daquela espécie precisa). O desastre começou por fornecer enquanto sinais premonitórios um amarelecimento progressivo da pele e a queda dos picos do cacto; duas semanas depois do definhamento ter iniciado, a planta mostrava-se já uma sombra daquele luxuriante espécime que fora: sem picos e com as estrias da cúpula perdendo dia a dia a saliência, mirrava em tamanho, perdia o vigor e encardia-lhe a clorofila a olhos vistos. Os especialistas multiplicaram-se em esforços para salvar a beleza rara, trouxeram estufas climatizadas, sais minerais, princípios da cultura hidropónica e a melhor das vontades. Os habitantes da cidade resolveram, por outro lado, falar com a planta no decorrer do seu passeio diário e fazer-lhe festas no dorso – como se dum golfinho perdido em pleno areal se tratasse – a meio do cross matinal. Alguns traziam também adubos e mezinhas, os quais não resultaram, e era, além disso, esta intromissão do desagrado dos cientistas. De novo um gemido, desta feita abafado e rouco, em desespero, inundou as noites como uma mágoa de morte e – contrariamente ao que sucedera com a dor do crescimento – foi perdendo alento, perdendo, até ser quase um fio de voz imperceptível nas noites de lua cheia. Não era o ruído, mas a possibilidade de o meu cacto morrer, que me tirava o sono durante a noite ou o inquietava em pesadelos horríveis, abrindo fendas pavorosas no esperançoso solo da consciência além-vigia e minando, dessa forma, o meu descanso com toda a espécie de sortilégios aterradores. Mas o dia chegou em que aquilo que eu temia nos sonhos aconteceu deveras. Passadas duas semanas e três dias dos dois anos e nove meses, o cacto mirrou visivelmente, as estrias viçosas de seiva transformaram-se-lhe em rugas secas de velho; outros dois dias passados, a cor amarela escureceu-lhe num pálido castanho e, logo a seguir, num sépia profundo. Era aqui já visível que a planta definhava e apodrecia de modo irremediável. Às duas semanas e cinco dias uma parte da bela cúpula abobadada caiu de surpresa ao solo, como se tivesse sofrido uma mutilação grosseira, e ao sexto dia a planta enegreceu por completo, além de ter perdido mais alguns bocados que a deixaram com um recorte estranho, como se o seu perfil representasse um hindu experimentado e flexível executando complexa posição yoguística. Ao sétimo dia a planta suspirou e o meu querido cacto despido de espinhos, como um hindu cansado, caiu por terra e morreu. Decidimos enterrá-lo ali mesmo, o que foi – do mal o menos – uma boa ideia, por causa da qualidade do fertilizante que forneceu: não sei hoje imaginar o meu quintal robusto nem o meu jardim de árvores frondosas sem aquilo que restou dele.

 

 

PARA SEMPRE PORQUE SIM

 

Não lhe apetecia nada. «Não digo» dizia, «Não faço», «Não quero», «Não posso», «Não me apetece». E quanto dizia era só por não lhe apetecer. Recusava tudo: qualquer proposta, qualquer negócio, qualquer convite. Não entrava em jogos, negociatas, visitas, excursões, conversas, curiosidades, apetites. Não saía à noite nem se resguardava do frio. Não tinha medo dos ladrões. Não desobedecia à lei nem fazia por obedecer-lhe: ignorava-a (fazia bem neste ponto, visto que a justiça humana e estatal era uma injustiça estabelecida para com tanta gente, ou seja, uma forma de os poderosos se resguardarem do linchamento popular quando as coisas ficavam pretas). Estamos a falar duma mulher-renúncia. Era esguia, de olhos castanhos e cabelos negros muito lisos; tinha do lado esquerdo do pescoço um sinal em forma de coração: tapava-o com o cachecol como se se sentisse vulnerável com ele à mostra. Não estava perto nem longe de ser alta, o seu tamanho era comum. Vestia com sobriedade uma camisa de cor lilás desmaiada e calças pretas – isto na maioria dos dias. Andava com renúncia, como que ausente de cabeça e corpo, e recusava-se a gesticular quando falava. «Era do contra» dizem uns, «Nada, só podia ser oposição» opinam outros. Digo eu que não era de nada nem de ninguém, como uma boa mulher-renúncia que se preze. Também se recusava a ser boa e a prezar a renúncia; tinha um humor cáustico mas condescendente – por mais incrível que esse adjectivo possa parecer numa mulher que renuncia a tudo ou quase. Quando lhe perguntam a quê não renuncia, a mulher-renúncia faz um jeito meio tímido, enrolando o cachecol ao pescoço, e responde: «Não digo». «Mas por que razão não diz, minha senhora?», «Não posso», «E por que razão não pode?», «Não quero». E estava dita a conversa redonda que indica renúncia e desvontade. Exasperavam os repórteres em torno da mulher-renúncia, reclamando explicações racionais e lógicas: ela sempre os envolvia numa teia de negações que aprisionava os argumentos mais lestos. Queriam dar-lhe concordância e assentimento pelo Natal como qualidades, os vizinhos da mulher-renúncia, porém o mais que conseguiram foi que ela lhes recusasse e devolvesse polidamente os presentes: «Não, obrigada» disse. A mulher-renúncia recusava-se a ter um cão e a passeá-lo; também não saía à chuva por menos que chovesse. Ao telefone respondia com silêncios ou nãos a todas as perguntas; era raro que se visse ao espelho, esta mulher, e quando o fazia desaprovava geralmente a sua imagem murmurando: «Que ridícula», depois ria-se da figura no espelho porque renunciara à tristeza havia muito tempo. Recusava-se, a mulher-renúncia, a não tirar férias, o que durante muitos anos lhe deu problemas patronais, uns sérios outros nem tanto, pelo facto de não querer antes renunciar ao descanso em favor do trabalho. «Quem escolhe ao que deve renunciar sou eu!» impunha-se a mulher-renúncia, e isto aconteceu até ao dia em que ela renunciou ao patrão e decidiu começar a trabalhar por conta própria. Então sim, grande parte dos seus problemas findaram. A mulher-renúncia sentiu nesse momento que tinha feito a escolha certa. «O seu patrão declarou que era uma má empregada, o que tem a declarar a respeito disto, mulher-renúncia?» interrogavam-na os jornalistas à saída de casa, «Nada, meus senhores, nada!» sorria a mulher-renúncia, enrolando melhor o cachecol em torno do seu pescoço. Pensou ela que assim era, com efeito: uma má empregada, e portanto nada tinha a objectar. Passou a trabalhar para si mesma daí em diante, está claro que mais feliz do que nunca.

Um dia, sempre conheceu a mulher-renúncia um homem-renúncia que se recusou a convidá-la para jantar: o caso foi de novo intrigante para a imprensa, embora nenhum dos dois tenha prestado quaisquer declarações. Mas o homem-renúncia recusou-se a ficar indiferente, na realidade parecia mesmo era obstinado: um dia chegou ao pé da mulher-renúncia e quis beijá-la, ao que ela renunciou com elegância, agradecendo a pretensão da cortesia. Outro dia a mulher-renúncia levou o homem-renúncia a passear e, tendo visto uma bonita paisagem que a comoveu, quis dar-lhe a mão: o homem-renúncia retirou a sua sorrindo. Recusavam muitas vezes ao telefone ir a casa um do outro, isto para manterem uma certa compostura. Mas certo dia a mulher-renúncia quis levar o cão do homem-renúncia a passear, e este deu-lhe a mão e foi com ela. Quando os repórteres lhe perguntaram por que razão iam casar, tencionando ser felizes para sempre, a mulher-renúncia respondeu simplesmente: «Porque sim».

 

A ALEGORIA DA GAIOLA

 

Irei agora propôr aquilo que por manifesta insuficiência da clássica Alegoria da Caverna convencionei chamar, salvo os devidos equívocos e a minha manifesta falta de gosto, a Alegoria da Gaiola. Isto porque se Platão propôs que a linguagem, libertando os brutos pré-históricos das grilhetas, os levava a ver a luz pondo-os no caminho da verdadeira sabedoria, parece-me, por outro lado, sobejamente notório que pululam por esse mundo fora os brutos, mesmo sabendo ler e escrever. Uma questão pertinente a colocar, sobre a do acesso à linguagem como um acto consumado, é portanto a do uso mesmo que dessa linguagem se possa fazer, a sujeição a regras ou a adopção de uma atitude crítica perante elas, a renovação da linguagem ou a acomodação ao que já existe, a reprodução maquinal da realidade evidente no mundo ou a invenção de novas realidades, fantásticas ou aventurosas, não palpáveis porque irreais, mas sentidas como reais por cada um dentro de si, através duma linguagem nova e inaugural, mais ligada ao que se sente ser verdade, universalmente óbvia a quem disponha de suficiente sensibilidade, profética por vezes, mas de todos os modos distinta e num patamar cimeiro ao do uso corrente da linguagem comum, feita para comunicar sem, na maioria das vezes, pôr em causa e sobretudo já feita em forma, feitio e sentido por muitos alguéns anteriores àquele que a usa. Um código que ninguém põe em causa, a abolição de neologismos (estes profundamente ligados a modos de sentir pessoais), diferenças de ritmo, comparações e metáforas, estilos e contra-estilos, é uma língua morta antes de mais, um comunicar vazio por não se adaptar a quem comunica, formatado como está para ser utilizado por todos sem a aceitação de diferenças nos modos de ser individuais. Uma linguagem viva, pelo contrário, deverá estar colocada ao serviço do ser para melhor exprimi-lo e com maior precisão comunicar, ou seja, não deverá por outra banda cair no reduto confuso do incompreensível, por tão subjectiva se tornar que não será já código comum mas excentricidade pessoal. É no domínio desta linguagem nova e inaugural que a semelhança entre a poesia e a busca de verdades eternas ou universais, ainda que subjectivamente sentidas por cada um, se torna patente. A poesia é, por definição, uma arte-oráculo e um dom inexpugnável para quem a traz, como fonte, dentro de si – um poeta não conseguirá jamais ser um autómato e não apreciará nunca ver-se mandado por outrém: ele é, antes do mais, um homem livre, livre para voar de asas soltas fora da gaiola dos signos convencionais e/ou dos significados estabelecidos. Ele é um inventor de novas sensações porque sabe recombinar as existentes, isto é, um artista. Os artistas são os seres mais livres e menos socialmente conformados que se podem encontrar – uma sociedade sem artistas é uma podridão nauseabunda sem capacidade inventiva nem esperança de futuro mais risonho que o da discussão alcoviteira e flatulenta, cuspida. Vem isto a propósito dos novos usos (e prementes) da linguagem, da quebra de regras na invenção multiforme, do espedaçar da corrente na gaiola do ser para libertar o espírito em voos maiores que o do uso cadavérico duma linguagem obsoleta e estabelecida, uniforme, logo, longe das verdades e dos sentidos maiores, tanto os já achados como – mais gravemente – aqueles que se encontram por descobrir ou pôr em evidência. A alegoria da gaiola segundo Magritte é um homem sentado com um objecto que tal no lugar do estômago e a liberdade à espera do nunca mais. Libertar o pássaro da consciência implicará um burilar cuidadoso e inventivo da linguagem em primeiro lugar, porque é através dela e, tantas vezes, rompendo-a ou retorcendo-a, toureando-a com destreza, que o pensamento trabalha para dar à luz novas reflexões e esclarecer sentidos, para libertar enfim o ser dessas outras grilhetas representadas pela gaiola linguística, sendo o não-nomeado e o não-nomeável somente o ar que circula entre as grades da gaiola ou nesgas de céu aberto e possível.

Vêm estas considerações acima dispersas justamente a propósito do facto de nos parecer a Alegoria da Caverna manifestamente insuficiente para dar conta destas realidades maiores que são os complexos usos da linguagem e a possibilidade de aceder à liberdade de espírito através (ou apesar) dela.

 

NA METADE DO MEIO

 

Parecia que estava à chuva e, no entanto, não chovia, parecia um chileno desafortunado em Paris. Do outro lado da vidraça com a morrinha imaginária a bater-lhe na nuca. Quando saí do café puxou-me vigoroso por um braço: «Venha, vou mostrar-lhe então a minha morada». Veio esta resposta diferida no tempo, a satisfazer duma maneira solícita que eu não aguardava a minha anterior pergunta – anterior até à minha entrada no estabelecimento, quando ele decidira ficar lá fora a aguardar de pé, espreitando-me de vez em quando pela vidraça como um chileno desafortunado à chuva em Paris –, a minha pergunta impertinente sobre o local onde residia. «Vamos por ali, na direcção da biblioteca» indicou ele com um tom de voz amigável e ameno, como se a simples ideia de lar confortasse imenso o seu “tormento francês”; segui devagar a seu lado, divertindo-me com o som da neve clara debaixo dos pés e aspirando em paz o ar frio, na paisagem purificada por aquele nobre manto. Aproximámo-nos do edifício da biblioteca, aí a neve encontrava-se salpicada por folhas lilases de plátano, então ele parou e, para meu grande espanto, anunciou com certa solenidade e uma ponta de orgulho: «É aqui». «Aqui?» pensei, mas limitei-me a fazer um olhar interessado, seguindo-o respeitosamente, portão dos jardins adentro. Cumprimentou os funcionários que acabavam o seu dia de trabalho e subiu a escadaria em madeira sempre num passo leve: eu fui atrás dele. Dei por nós no primeiro andar, na ponta dum grande corredor atapetado, com diversas portas laterais. «Bem-vindo ao meu humilde sítio» disse ele virando a cabeça para mim sobre o ombro com uns olhos quase comovidos, e após dizer isto entrou na segunda porta à esquerda, abrindo-a com uma chave de cobre antiga que tirou do bolso traseiro das calças. Assim que empurrou com o corpo o rectângulo de madeira, dois feixes de luz viva invadiram a penumbra do corredor iluminando o pó que circulava no ar, e as figuras do forro de azulejos que cobria as paredes até à altura da cintura animaram-se nos seus movimentos cobalto: uns pajens tocando flauta, um cão saltando, duas damas abanando os respectivos leques e um cocheiro embrulhado num paletó atiçando dois cavalos sobressaltados. Entrei atrás dele: na divisão havia apenas uma enxerga, dois grandes janelões sem cortinas, uma poltrona, uma mesa e uma cadeira. Obedecendo à sua indicação, sentei-me na cadeira com os joelhos muito juntos: «Obrigado – agradeci – Mas então, é aqui que mora?». Lá fora o sol gotejava tímido os últimos raios por sobre as árvores despidas, com os seus troncos e ramos prateados pelo reflexo da neve clara, humedecidos num quebranto. Aquele que poderia ser chileno, um chileno exilado em Paris, confirmou: «Exactamente» e, não tendo dado quaisquer explicações adicionais, levantou-se para apanhar um livro que, segundo ele, «estava ali, na metade do meio» duma pilha erguida ao canto do compartimento. Este homem robusto, de pele corada, bigode e olheiras tristes, sentou-se depois, satisfeito como uma criança, na beirinha da cama, enquanto eu me aproximava dele – recostei-me no braço do cadeirão – para vê-lo abrir o livro numa página ao calhas e ouvir contar: «Era uma vez um homem que parecia que estava à chuva e, no entanto, não chovia, parecia um chileno exilado em Paris. Esse homem habitava no primeiro andar duma biblioteca estatal, num pequeno compartimento com muito pouca mobília e dois grandes janelões sem cortina que davam para os jardins cobertos de neve da biblioteca, que era a sua casa. Um dia esse homem levou um amigo lá a casa, tirou um livro da metade do meio duma pilha erguida ao canto do quarto e sentou-se na beirinha da cama a contar…».

 

NATURALMENTE FELIZ

 

A senhora dona escritora sentou-se no café às seis e meia da tarde com o cabelo muito branco penteado em leque e um cachecol de lã grosso. O café só se tornava café com as decorações natalícias, o resto do tempo era uma triste vitrine. «Deveria permanecer decorado o ano inteiro» pensou ela, e assim que terminou de pensar isto uma garota com idade para sua neta sentou-se com destreza numa mesa à frente dela e começou a enrolar um cigarro. Levava com cuidado à boca, a senhora dona escritora, uma chávena de chá amarelo e vaporoso que vertera dum bule em forma de coco – e ora fazia isto, ora pegava num bolo de gengibre, esverdeado pelo corante, com o polegar e o indicador. Soltou a rapariga uma primeira baforada cheirosa do cigarro que levou à boca com desdém enquanto desdobrava um mapa sobre a mesa: então a senhora escritora, que era uma dona mulher, pôs-se a imaginar sozinha como seria estar na pele daquela garota, ou seja, a inventar-se muito mais nova do que era de facto e a recordar entrelinhas como a juventude lhe passara num ai. Tratava-a como a uma prima afastada e campónia, à juventude, pela qual – talvez devido à sua pobre inocência – sentia, contudo, algum disperso carinho. Preparava-se dona escritora para interrogar os afazeres da garota numa terra que desconhecia entre duas dentadas no gengibre açucarado quando reparou, lendo às avessas e com duplo esforço porque disfarçadamente as gordas letras do cabeçalho, que o mapa deitado como um lençol sob as migalhas do croque monsieur da rapariga era da Argélia. «Bom, isto já se torna mais interessante…» reflectiu a senhora escritora, ajustando ao pescoço o cachecol «Eu, na minha juventude, nunca tive oportunidade de galgar fronteiras – não que o não desejasse, pelo contrário – e a nossa noção de país vizinho (nossa, da minha geração, digo) era qualquer povoação que distasse uns cem quilómetros da casa paterna». «Mas talvez seja isso mesmo» continuou a supor a senhora dona escritora «quem sabe a rapariga não tem lugar nem cheta para ir – a frugalidade nota-se-lhe bem na mala rasgada – mais longe do que a sua própria casa ou até a dos papás: nesse caso, aproveitam-lhe os desenhos de geografias distantes decerto para inventar aventuras ou sonhar-se a coitada longe, desbravando essas paisagens ansiadas com toda uma fúria imaginativa e maravilhosa. Ah, a força esplêndida de quem tão poucos anos carrega na memória!» completou a escritora o seu raciocínio com esta frase murmurada, antes de sorver e sentir escorrer quente pela garganta um outro gole de chá. Aqueceu-lhe a ponta dos membros o líquido fervente como um vapor que depressa corresse pelas veias a aconchegar dedos e tendões, carnes nas extremidades.

Da outra ponta do café – que só se parecia com um café com todas aquelas luzes na montra enforcadas – ressoou a tosse dum cavalheiro distinto sobressaltando e desviando por momentos a atenção da rapariga do mapa. «Engraçado, como se interessa por tudo, curiosa do mundo – até pelo catarro dum pobre diabo…» reparou para consigo a senhora escritora circunspecta diante dela, e então encaixou com a mão em concha a mola do brinco esquerdo enquanto virava ao de leve a cabeça para atentar também melhor no cavalheiro pigarrento: com excepção do chapéu para atirar aos patos e a outras aves selvagens quaisquer cujo nome não lembrou à senhora dona escritora, e do blusão de caça escondendo um cachecol axadrezado, nada nele sobressaía. Dir-se-ia ali por completo hábito ou pleno acaso, com efeito tinha cara de gente anónima, uma tez baça e um olhar transparente sem conteúdo que pudesse palpar-se ou sequer pressentir-se, mesmo para quem insistisse em fixá-lo. A rapariga voltou ao mapa com uma perscrutação redobrada, procurando um ponto qualquer que talvez já nem se distinguisse assinalado à superfície graças ao papel avelhentado, e a senhora dona escritora olhou-a agora com ternura, procurando indícios da sua juventude enforcada. Toda ela era luminosa: de ventre e de rosto, de mãos e de braços, o seu odor brilhava num rasto e reverberava nas paredes do café, o sorriso – e raras vezes sorria, talvez apenas o tivesse feito ao receber um chocolate quente das mãos do empregado, e mesmo nesta ocasião fizera-o, reparou a escritora, mais por cortesia e menos por vontade – tinha um notável odor a cravinho, ou pelo menos indiciava-o no lugar da língua, aromatizando bochechas e gengivas para afastar da boca o sabor agre do tabaco. «A tua, é uma idade agridoce» reflectiu a escritora «eu, quando era tu, sabia muito bem o que queria e mal conhecia o que desejava. Mas era naturalmente feliz. Por infortúnio, com a idade perde-se, às vezes, essa graça espontânea que nos impele e tanto atrai os homens como os afasta. Ao empregado agradou o teu sorriso, pequena; no entanto, só eu o reconheci forçado. Talvez só eu o pudesse reconhecer: onde sorri eu já por frete assim, num tempo muito longe da memória e fingindo deveras bem amabilidade? Em que cafés desbravei eu esses mapas de países que só muito mais tarde vim a conhecer? A tua é uma aventura excelente, perpetua-a e proclama-a à chegada. Eu cá, sinto que estou perto da meta, aproximo-me a passos largos do fim. Talvez sejas a maneira mais alta de proclamar a minha odisseia pessoal, relembrando em ti e no teu rosto toda a pujança dos meus sóis entretanto enforcados – por favor, continua que eu não te perturbo, far-te-ei (far-me-ás) companhia neste fim». A jovem aquecia as mãos geladas na chávena de chocolate, depois o seu dedo escorria por um rio e toda ela se debruçava sobre um ponto preciso, procurando alguma coisa que tardava em encontrar. Irritou-se e puxou com força o fumo do tabaco, então enterrou o dedo numa duna do deserto e soprou uma baforada no ar, estudadamente encarreirada para as bandas do cavalheiro distinto. «Foi um suplício lidar com os homens no meu tempo, tudo se perfilava em favor dos dotes menos maus e mulher que não era puta, não fumava. Salvaram-se-me os pulmões mas foi-se-me a inocência: as maiores putas são as que se dão por comodismo e desistência a um homem, ou então as que nada pedem da vida, nada esperam ou anseiam lutando por isso (antes sonham ou nem sonham, iludem-se e a ilusão não enche boca nem espírito). Sei que não és assim mas naturalmente feliz e que a tua inquietação não te deixa sossegada – ainda bem; crês de facto que chegarás um dia ao ponto que procuras com tanto afinco no mapa, na realidade farás tudo o que estiver ao teu alcance para consegui-lo: também eu creio que lá chegarás. A tua teimosia não te dará tréguas, podes refrear todos os sentimentos menos esse de fazer o que crês certo no momento que acreditas exacto – se é que o certo e o errado existem, coisa da qual não terás, por esta altura, muita certeza. A novidade que tenho a dar-te é a seguinte: daqui por meio século não terás alcançado ainda qualquer verdade a esse respeito». A senhora escritora suspirou do alto das suas elucubrações, aspergindo em redor o fumo do chá: isto chamou a atenção da rapariga, que ergueu os olhos do mapa observando-a um pouco fixamente. «Que queres rapariga, deram-te os olhos para indagar?» pensou a escritora no exacto momento em que trincava com ar blasé o último pedaço de bolo. Aproveitou o súbito interesse da moça para esquadrinhar-lhe as feições: o fato era modesto e descuidado, um pouco largo, lenço ao pescoço cor de malva e meio transparente; o rosto era quase perfeitamente redondo, corado em simetria e os olhos muito pequenos e afastados conferiam-lhe um ar sóbrio, coerente. No pulso esquerdo uma pulseira de fita e uma madeixa loira do lado direito do rosto, sobressaindo na escura cabeleira. «Esse teu dever por vir é um amanhã muito depois» constatou a escritora captando-lhe a liberdade no tutano da existência; «Sabes muito bem que pouco mais do que nada sabes, e esse é um bom começo…» insistiu para consigo, deliciada com o bigode de chocolate quente desenhado sobre os lábios finos da rapariga «Deve começar-se por algum lado e, a começar-se, sinceramente: que seja por aí. Sonhas com esse lugar onde sei que tu nunca e só daqui por algum tempo, coisa de nada em anos de jovem… Porém respeito-te e admiro-te já pelo que fui, que és quase tu mas distintamente. Não me permite a vida esperar o tempo suficiente para ver-te concretizá-lo, esse teu sonho, nem outros tantos que de igual modo acalentarás, com uma chama doce, funda e quente no coração desperto. A tua razão tem muito de sentir – ou, ao menos, assim sucedia comigo: sendo eu tu quando me suponho nesse teu lugar, e por conseguinte sentindo-o como meu escassos instantes. Terás com certeza, por agora, desperto já o espírito para as questões ocultas da natureza, aqueles grandes problemas que a todos nós, homens, nos ultrapassam tão bravamente, deixando-nos à toa num mundo sem grande fé se a não procuramos – a ti, segundo calculo, aconteceu procurá-la e aconteceu ainda que nenhuma te satisfez; as respostas feitas não te agradam, ou agradam-te tão pouco como as perguntas por fazer: depressa podes inferir-lhes falsidades práticas e fragilidades teóricas, e isto submetendo-as somente ao rigor obstinado da tua experiência. Em nenhuma fé são as virtudes plenas ou os pecados risíveis, nenhuma te dá um inferno ameaçando com um céu – são apelativas, como é óbvio. Mas só nesses termos, pois não podem suprir de modo algum as necessidades dum espírito irrequieto, embora seja verdade poderem serenar os atormentados, anestesiando-os com um caldo místico susceptível de substituir os soníferos. Não se passa, portanto, nenhum sonambulismo deste género com o teu ser que, debruçado sobre o mapa da Argélia, parece contudo a pontos de adormecer».

«Não é sono, não, senhora, aquilo que agora me atormenta, senão um pensamento persistente que me deixa – naturalmente – feliz e me há-de levar até si».

Ergueu-se inesperadamente a rapariga, pôs a mala ao ombro, dobrou bem o mapa e caminhou na direcção da senhora: não já os sóis enforcados, antes um cometa refulgente e bem desperto. «Aproximou-se de mim, parou de pé à frente do bule, corou ainda mais. Gaguejou de início, depois lá acertou com o tom e o ritmo conveniente na voz para perguntar:

– Desculpe a questão despropositada, mas a senhora por acaso não será também escritora?».

 

 

* Estes contos foram editados pela Sinapses [1ª editora portuguesa online, entretanto extinta] em 2007.

 

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